UPDATE: Graças à Bia do Big Bang Blog , aprendi que mais um chavão da divulgação científica em astronomia está incorreto. Anãs marrons podem não emitir aquele banho de luz visível, mas elas emitem luz infravermelha, gerada da transformação de hidrogênio leve em hidrogênio pesado (deutério). Anãs marrons, portanto, podem sim ser consideradas estrelas.Ou não? Será um debate do tipo “Plutão não é planeta”?

“Era uma vez uma bola de gás gigante que queria brilhar na vida, mas que viveu infeliz para sempre como um Júpiter gordo e frustrado convertendo hidrgênio em deutério”, parece um epitáfio apropriado para corpos celestes que são um meio termo entre planeta gasoso e estrela—as anãs marrons.

Agora, uma equipe de astrônomos da Espanha, EUA e Taiwan fez uma descoberta que sugere que, para pelo menos algumas anãs marrons, essa triste história faz sentido.

Representação artística da anã marrom ISO-Oph 102 acretando gás de um disco em volta dela e liberando  parte em dois jatos. O gás ejetado se choca com o meio interestelar formando os arcos de choque em azul. Crédito: ASIAA


Com a rede de rádio-telescópios Smithsonian’s Submillimeter Array, os astrônomos observaram
a anã marrom ISO-Oph 102. Eles notaram as ondas de rádio emitidas pela vibração de moléculas de monóxido de carbono (CO). Comparando com imagens da mesma anã marrom do telescópio espacial infravermelho Spitzer, da Nasa, descobriram que as moléculas de CO eram expelidas em dois jatos de gás, cada um saindo de um dos pólos de rotação da anã.

Acontece que esses jatos são muito parecidos com os jatos de estrelas jovens ainda em formação, como as estrelas T Tauri. É a primeira vez que se vê jatos assim saindo de uma anã marrom.

Anãs marrons são esferas de gás com massa entre 15 a 75 vezes a de Júpiter, o maior gigante gasoso do Sistema Solar. Sua massa é enorme comparada com a dos planetas, mas pequena se comparada com a das estrelas. Se as anãs marrons mais massivas fossem um pouquinho  mais gordas, teriam gravidade o suficente para espremer o gás em seu núcleos até brilharem com a energia da fusão nuclear, como fazem as estrelas. As anãs marrons são vistas, portanto, como projetos de estrela fracassados por falta de recursos.

Ainda não se sabe se as anãs marrons nascem como os gigantes gasosos, da formação de um núcleo rochoso que em seguida acumula gás, ou  se nascem como as estrelas, do colapso gravitacional de uma núvem de gás.

Os jatos de ISO-Oph 102 sugerem que pelo menos essa anã marrom nasceu como uma estrela. Os jatos saindo da ISO-Oph 102 parecem uma versão em miniatura de jatos vistos em estrelas em formação. A massa total de gás dos jatos dessa anã marrom é 1000 vezes menor e a taxa de gás saindo é 100 vezes menor que a dos jatos de protoestrelas.

A medida que a nuvem interestelar se contrai pela força de seu próprio peso, o gás cai espiralando em direção do centro da anã marrom. Esse gás cai girando em um disco em torno da ISO-Oph 102. Um pouco do gás acumulado é lançado na forma de um par de jatos bipolares. O gás ejetado pelos pólos de rotação leva consigo parte da energia de rotação e faz a anã marrom girar mais devagar e assim acumular mais gás do disco.

Os astrônomos também encontraram evidências de que cristais estão se formando no disco ao redor da anã marrom. Ao eliminarem o excesso de gás no disco, os jatos podem favorer a formação de planetas rochosos a partir desses cristais, especulam os astrônomos.

Anã marrom, seu disco de acreção e jatos bipolares, em ilustração de David A. Aguilar (CfA)


Fontes:

Tethya aurantium, a "laranja-do-mar". Fonte: Wikimedia Commons

Tethya aurantium, a "laranja-do-mar". Fonte: Wikimedia Commons

A mãe natureza inventou as fibras óticas, centenas de milhões de anos antes de nós, concluiu um grupo de biólogos alemães. Eles descobriram que esponjas da espécie Tethya aurantium (“laranja-do-mar”) são capazes de absorver a luz de seu ambiente aquático e canalizá-la para dentro de seus corpos. A luz penetra no interior do animal marinho em um zigue-zague de múltiplas reflexões nas paredes internas de canudinhos de dióxido de silício (principal componente dos vidros comuns) que fazem parte de estruturas micoscópicas em forma de estrela, chamadas de espículas.

O princípio de propagação da luz pelas espículas é o mesmo pelo qual um pulso de luz é transmitido pelas fibras óticas. Uma rede de espículas forma o exoesqueleto que sustenta o corpo da esponja—organismo feito de várias células, mas sem nervos, músculos, ou qualquer outro tipo de órgão ou tecido. Apesar de primitivos, são os únicos animais conhecidos com “fibras óticas”. A luz canalizada permite que algas e cianobactérias vivendo no interior da esponja ao redor das espículas façam fotossíntese, produzindo nutrientes essenciais para o crescimento da esponja.

O que os biólogos fizeram para descobrir tudo isso? Em um local escuro, inseriram papel sensível à luz dentro das laranjas-do-mar e, depois, acenderam as luzes. Quando extrairam o papel de dentro das esponjas, viram que os pontos no papel impressionados pela luz coincidiam com as pontas das espículas. No artigo publicado no Journal of Experimental Marine Biology and Ecology, os pesquisadores ainda observam que a silica de origem biológica pode ser sintetizada em laboratório para aplicações tecnológicas. LINK

Crédito: Luciano Paulino Silva

Crédito: Luciano Paulino Silva, Embrapa

O que é isso? Três rosquinhas que assaram demais? Na verdade, são três células vermelhas de sangue humano, corroídas pela substância antibiótica filometilina, extraída da pele da rã Phyllomedusa hypochondriallis. O brasileiro Luciano Paulino Silva obteve a imagem por um microscópio de força atômica, que funciona como uma espécie de toca-discos de vinil, com um braço com uma agulha na ponta. A agulha passa sobre as células e, à medida que sobe e desce pela ação das forças moleculares, desenha a imagem, que ganhou prêmio de segundo lugar ano passado em um concurso internacional de fotografia microscópica. LINK

Bactérias coloridas e fluorescentes cultivadas em uma placa de petri. O DNA das bactérias foi modificado para que elas produzam proteínas coloridas e fluorescentes, desenvolvidas em 1996 por Roger Tsien, um dos ganhadores do Prêmio Nobel de Química de 2008. Crédito: Nathan Shaner, Paul Steinbach, Roger Tsien, Wikimedia Commons

Bactérias coloridas e fluorescentes cultivadas em uma placa de petri. O DNA das bactérias foi modificado para que elas produzam proteínas coloridas e fluorescentes, desenvolvidas em 1996 por Roger Tsien, um dos ganhadores do Prêmio Nobel de Química de 2008. Crédito: Nathan Shaner, Paul Steinbach, Roger Tsien, Wikimedia Commons

O prêmio Nobel de química deste ano talvez seja o mais fotogênico de todos os tempos. Para saber mais por enquanto, veja o blog no Marcelo Leite e o Brontossauros no Meu Jardim. E não perca a edição da Folha de S. Paulo de amanhã que terá uma reportagem sensacional e exclusiva sobre o assunto, feita pelo Rafael Garcia e o Cláudio Angelo!

Microgametócito de P. vivax em uma amostra de sangue. Fonte: Wikimedia Commons

Microgametócito de P. vivax em uma amostra de sangue. Fonte: Wikimedia Commons

Cientistas mapearam os genomas de dois agentes causadores da malária, a doença que, de acordo com a Organização Mundial de Saúde, matou 881 mil pessoas e infectou 247 milhões no mundo todo em 2006.

Os novos dados ajudarão a desenvolver remédios e vacinas para combater a doença transmitida pelos mosquitos Anopheles, afirmam os dois grupos de pesquisadores que publicam hoje seus trabalhos na revista “Nature”.

“Será uma ferramenta poderosa”, disse Jane Carlton, da Universidade de Nova York, principal autora do mapa do genoma do Plasmodium vivax, em reportagem da agência de notícias Reurters.

Entre os que colaraboraram com o estudo de Carlton estão o técnico de nível superior Márcio Yamamoto, da Universidade de São Paulo, e Hernando del Portillo, atualmente no Centro Internacional de Pesquisa em Saúde de Barcelona, mas que estava na USP quando participou do estudo.

A equipe de Carlton descreveu a sequência completa do código genético do animal unicelular que é o responsável pela maior parte dos casos de malaria na América Latina e grande parte da Ásia. No total, de todos os casos de malaria no mundo, 40% são provocados pelo P. vivax —2,6 bilhões de pessoas correm risco de serem contaminadas por ele.

Embora o tipo de malaria que o P. vivax provoque não seja normalmente fatal, os sintomas são mórbidos: febres que somem e reaparecem de hora em hora, dor de cabeça, cala-frios, suor excessivo, vômito, diarréa e inchaço do fígado—justamente o órgão onde o parasita se instala no corpo.

Depois da primeira aparição da doença, o vivax pode permanecer adormecido no fígado por meses ou anos, até voltar a atacar. Os pesquisadores descobriram genes que podem ser os responsáveis pelo adormecimento, o que talvez ajude os cientistas a encontrarem uma maneira de estragar o “sono” do parasita. Outros genes descobertos pelos pesquisadores parecem ajudar o parasita a invadir as células vermelhas do sangue e escapar da polícia do corpo—o sistema imunológico. O P. vivax está se tornando resistente a alguns remédios antimalária.

A maioria da mortes por malária na África são causadas pelo Plasmodium falciparum, cujo genoma foi mapeado em 2002.

Os pesquisadores descobriram que o genoma do vivax se parece de várias maneiras com o do falciparum, o que significa que certas estratégia para vacinas sendo testadas contra o parsita africano podem ser úteis no combate ao vivax.

Outra equipe, liderada por Arnab Pain, do Instituto Wellcome Trust Sanger (Reino Unido), fez o mesmo tipo mapeamento completo para o genoma do parasita de macacos Plasmodium knowlesi.
Esse parasita está rapidamente se estabelecendo como o quinto mais importante causador de malária em pessoas.

Os pesquisadores descobriram um truque usado pelo P. knowlesi para evitar a detecção pelo sistema imune. Alguns de seus genes são muito parecidos com o gene humano envolvido na regulação dos sistema imune.

Para saber mais

Um perfil engraçado de Jane Carlton, uma “viciada em genômica”, publicado na Inkling Magazine, conclui falando do trabalho sobre o P. vivax:

Embora não seja tão letal quanto o P. falciparum, essa espécie de malária einfecta muito mais gente no mundo inteiro e tem um alcance muito maior, persistindo na África, Ásia e América do Sul. Ela [Carlson] planeja lançar o genoma do P. vivax como uma comporação entre quatro espécies diferentes de malária. Ela espera encontrar pistas de alvos para remédios comuns a todas as espécies e ganhar intuição nas diferenças de suas virulência e letalidade. Por favor, note que apenas um usuários experiente do calibre de Carlton poderia tentar tal estudo intenso. E que Carlton seja um exemplo para todos considerando fazer genômica: cuidado, você pode se viciar.

Tudo o que você sempre quis saber sobre o Plasmodium vivax e malária em geral, mas nunca encontrou alguém para lhe explicar, está no Vivax Malaria, um site mantido por Carlton.

A repórter de ciência Luciana Christante escreve sobre o pai da farmacologia brasileira, médicos pré-históricos, plagiadores renascentistas, uma campanha anti-tabagismo ilustrada pelo Ziraldo, uma obsessão insana por raios X no começo do século passado, o viagra tosco dos anos 80 e por ai vai, em seu blog Histórias da Medicina. Já está na lista dos meus favoritos. LINK

As meninas ganhavam a maioria das competições sexistas do Xou da Xuxa. Sempre desconfiei de fraude, embora precise reconhecer que a humilhante situação da TV se repetia no pátio do meu prédio, onde eu, pobre menino, sofria com as peças pregadas pelas meninas, que eram em maioria. Sofria também com as comparações com as vizinhas. “Minha filha tirou mais um dez! E você, quando vai tirar um?”

As meninas parecem responder melhor e mais cedo que os meninos às exigências da família e da sociedade. Elas percebem mais rápido o que precisam fazer para serem aceitas e recompensadas pelos adultos. Nesse sentido, elas são realmente mais espertas.

“Desde pequenas, as meninas fixam mais o olhar em outras pessoas, sorriem mais, são mais empáticas. Bebês meninas, por exemplo, choram mais quando veêm outros bebês chorando, do que meninos”, diz a psicóloga Maria Emília Yamamoto, da Universidade Federal do Rio Grande do Norte. “Uma explicação evolutiva para o fato das meninas serem mais responsivas socialmente é que geralmente eram as mulheres que saiam de seu grupo [de caçadores coletores, na pré-história da espécie humana] para acompanhar seu parceiro. Ela tinha que formar novas relações sociais. As habilidades sociais eram mais importantes para as mulheres que para os homens e dai elas desenvolveram um cérebro que é mais social e interativo que o cérebro masculino.”

Yamamoto e seus colaboradores investigaram como grupos de crianças de escolas públicas em Natal (RN) compartilhavam chocolates. No início, cada membro de uma turma de 6 a 24 crianças recebia três chocolates. Depois, cada um depositava quantos chocolates quisesse em uma urna, atrás de um biombo. “Depois que todas as crianças passavam pelo biombo, nós abríamos a urna na frente delas, contávamos os chocolates doados e, para cada chocolate doado, acrescentávamos mais dois”, explica Yamamoto. O total era dividido entre o grupo.
Assim, todas as crianças recebiam sua parte do “fundo público” de chocolates, que era tanto maior quanto mais crianças doassem mais de seus “bens privados”. A melhor situação para a criança era não doar nada, enquanto todos os outros fossem generosos. Era esse tipo de coisa que o grupo tentava controlar”, ela explica.

Os pesquisadores estudaram como o tamanho do grupo, o número de vezes que se brincava o jogo e o sexo das crianças influenciava os resultados. O tamanho do grupo foi o fator mais importante e não o sexo das crianças, como esperavam. “A gente imaginava que as meninas seriam mais cooperativas e no entanto, isso não apareceu”, disse Yamamoto. Ela explica o resultado pelo fato do ato de depositar chocolates na urna ter sido anônimo. “Meninas são mais influenciadas pelas opiniões que outros tem delas, do que meninos.”

“Estamos começando um novo trabalho onde observamos o efeito de um elogio ou repreensão no resultado desse experimento”, conta Yamamoto. “Depois de contarmos os chocolates da urna a gente comenta que a turma foi muito generosa ou que foram pouco generosos. A gente acha que as meninas vão ser mais sensíveis a essa consequência social.”

Será que dessa vez elas também vão ganhar?

Justiça social se aprende no meio da infância, e aprende-se melhor ainda convivendo em pequenos grupos. Essas são as respectivas conclusões de duas pesquisas independentes com crianças, feitas por psicólogos da Suíça e do Brasil.

Ernst Fehr, da Universidade de Zurique, e seus colaboradores propuseram jogos para 229 crianças de ambos os sexos, entre 3 e 8 anos de idade. Sozinhos com cada uma das crianças, os pesquisadores davam a elas duas opções. Em um dos jogos, por exemplo, as opções eram “dou um doce para você e nenhum para o seu amiguinho [mostrando foto de colega da escola]” ou “dou um pra você e outro pra ele”.

O resultado, divulgado na edição de 28 de agosto da revista “Nature”, foi que, mesmo sempre ganhando um doce, a maioria das crianças entre 3 e 4 anos de idade escolheu a opção egoísta de ficar com doces só para elas.

Por outro lado, a maioria das crianças entre 7 e 8 anos pensou em seus colegas e escolheu a opção altruísta. Mais do que generosidade, a análise dos resultados desse e dos outros jogos verificou que as crianças dessa faixa etária exigem que os doces sejam distribuídos igualmente entre os colegas. A tendência não existe quando a criança na foto não pertence ao seu grupo de colegas.

Essas conclusões podem ser óbvias para pais e educadores.O objetivo da pesquisa, porém, foi verificar o senso comum e explicá-lo. CONTINUE LENDO

Crédito: Rita de Almeida, UFRGS

Crédito: Rita de Almeida, UFRGS

Pesquisadores da UFRGS (Universidade Federal do Rio Grande do Sul) realizaram simulações por computador que explicam as primeiras etapas da regeneração total de um animal simples de água doce, de tamanho milimétrico, que fascina os cientistas desde o nascimento da biologia, no século 18.

A hidra—batizada com o nome do monstro mitológico que ganha outra cabeça sempre que lhe decepam uma de suas muitastem um poder fantástico de se recuperar de mutilações em seu ambiente natural. Mas é em laboratório que o bicho realmente impressiona.

A física Rita de Almeida, da UFRGS, ensina a receita. Pegue de 20 a 50 hidras e pique-as em pedacinhos. Coloque-os em uma solução que desgruda as células umas das outras. Ponha a solução em uma centrífuga, para embaralhar completamente as células.

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O que as bactérias ganham deixando a gente doente?

“As bactérias não ganham nada”, explicou Vanessa Sperandio, do Southwestern Medical Center, da Universidade do Texas, durante uma entrevista que fiz sobre o trabalho dela com um novo tipo de antibiótico que, em vez de matar as bactérias, impede que elas acionem seu arsenal de toxinas que provocam doenças em nosso corpo.

Segundo Sperandio, o processo de seleção natural que faz o seres vivos evoluir ao longo de milhões de anos favorece as bactérias que conseguem habitar nossos corpos em harmonia, como muitas das bactérias que vivem pacificamente em nosso intestino.

As bactérias que causam diarréia sanguinolenta, por exemplo, são espécies relativamente novas, que ainda não se adaptaram aos nossos organismos. “Costumo dizer que essas bactérias são como adolescentes com problemas de adaptação”, ela disse.

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