Saiu na revista Science a eleição do “breakthrough of the Year”, ou seja, a coisa que estourou a boca do balão no ano que passou.
E as células pluripotentes induzidas foram as escolhidas.
A técnica é simples: Pega-se uma célula adulta (da pele por exemplo), ativa-se 3 ou 4 genes nela e esta célula se comportará com uma células embrionária. Podendo dar origem a outros tipos celulares como células cardíacas e neurônios.
No futuro elas poderão tudo e muito mais do que se planejava fazer com as células-tronco embrionárias.
Aqui um videozinho da Science falando da história toda e um texto comentando. Aviso: está em inglês, e na página da Science, por isso não sei se você terá acesso. Caso não consiga, eu tentei.
É isso ae, fim de ano, todo mundo fazendo listas. Lista de presentes, de compras, de promessas para o ano novo e de lembranças do que já foi.
E no mundo científico é hora de fazer listas também.
O que de mais importante aconteceu na ciência mundial pela revista Nature:
O maior colisor de partículas do mundo, e talvez a maior obra do engenho humano, foi finalmente inaugurado. E nove dias depois a máquina de 5 bilhões de dólares quebrou. Mas a gente entende que falhas elétricas acontecem num monstro emaranhado de fios como esse.
Passa então de sucesso de 2008 para promessa de 2009.
Genoma pessoal atinge o mainstream
Mais dois genomas humanos completos foram divulgados. Um africano e um asiático tiveram seu DNA sequenciado. São agora 4 humanos no hall das pessoas sequenciadas. Além disto, o Personal Genome Project, que prentende sequenciar o genoma completo de 1000 pessoas, entregou seu primeiros dados em outubro.
Mas espere, se você ligar agora, empresas como a 23andMe podem sequenciar parter de seu genoma já relacionadas a algumas doenças. Basta enviar uma amostra de saliva e pagar a bagatela de 399 doletas.
Pouso da Phoenix em Marte
Em maio ela desceu e começou a cavar. Em agosto finalmente achou gêlo e um composto chamado perclorato. Agora a sonda Phoenix Mars Lander descança em paz no solo onde nós é que somos os alienígenas.
Obama vence, e a ciência com ele.
Muitas promessas vêm com o mandato do novo presidente dos EUA. Fim das restrições ao uso de células-tronco embrionárias; maior investimento em redução de gases e novas tecnologias limpas. Parece que será um bom ano mesmo, já que 4 cientistas já foram nomeados por Obama para participar do governo. Entre eles um nobel.
Biodiversidade Online
A “Encyclopedia of Life” (enciclopédia da vida) está no ar. Pelo menos com 30 mil espécies já online. A idéia do projeto é catalogar e disponibilizar informações sobre todas as espécies conhecidas até hoje. Neste ritmo, 90-95% já estarão na net até 2017.
Construção do primeiro genoma totalmente sintético.
Criou-se o primeiro genoma sintético, juntando 500 mil bases de DNA. Ficamos a poucos passos agora de construir o primeiro organismo artificial.
Caso Antraz foi encerrado trágicamente
O suicídio do principal suspeito do caso das cartas contendo a bactéria antrax fechou o caso. Bruce Irvins tinha acesso às bactérias justamente por trabalhar com elas em sua pesquisa. O FBI deu como solucionado, mas a Academia Nacional de Ciências americana quer ainda uma segunda opinião de uma junta independente.
Urso polar na lista de perigo de extinção.
O urso polar entrou na lista negra das espécies em perigo de extinção. Isso foi importante porque, além dele ser o xodó da criançada, foi o primeiro animal que tem como causa de possível extinção o aquecimento global.
Corrida espacial asiática.
A India chegou a lua com sua sonda Chandrayaan-1. A China entrou para o clube dos países que já fizeram caminhadas espaciais, junto apenas com EUA e Rússia. Até a Nigéria está mandando (não com tanto sucesso), sondas para o espaço, construidas em grande parte pela China.
É a “popularização” da corrida espacial para os países em desenvolvimento.
Toda atenção para o gêlo no Ártico
Não precisamos nem dizer que o aquecimento global foi uma das grandes pautas do ano. E um de seus termômetros é o gelo polar. No Ártico, a menor área da camada de gelo registrada em 2008 atingiu 4,52 milhões de quilômetros quadrados, número 9,4% maior que a de 2007 quando foi registrada a menor área de gelo desde o início das observações por satélites.
Olimpíadas de Pequim e a poluição do ar
“Olimpíada Verde” com aquela qualidade de ar péssima? Esta acabou sendo uma prioridade do governo chinês: reduzir a poluição do ar de sua capital. Não resolveu, mas baixou sim. No Índice de Poluição do Ar que vai até 500, Pequim estava abaixo de 100 em agosto. Como vai ficar depois dos jogos?
Crise financeira afeta a pesquisa
Institutos de financiamento importantes como o Wellcome Trust e Cold Spring Harbor Laboratory anunciaram sua primeira redução de bolsas em anos. Harvard e outras instituições não estão contratando, e empresas de biotecnologia se debatem para manter seus braços de pesquisa e desenvolvimento.
Células-tronco pluripotentes induzidas
Quando Yamanaka conseguiu induzir células adultas a se comportarem como células-tronco, um novo frisson surgiu nesta área de pesquisa. Agora, cientistas pelo mundo todo correm para desenvolver a técnica, transformando-a em tratamento a doenças e mais segura para uso em humanos.
- Vi na Nature
Inúmeras empresas e pesquisadores estão atrás do sonho de seqüenciar um genoma humano inteiro em poucas horas e por menos de 1000 dólares. Teríamos assim mais uma ferramenta de diagnóstico para a saúde e também uma nova fonte de obtenção de dados, tanto de humanos como de todo reino animal.
Veja neste vídeo como uma destas novas tecnologias de seqüenciamento funciona.
Vi na WIRED

É isso mesmo mocinhas. Depois nós homens é que somos os porcos que não lavam as mãos, não dão a descarga ou nunca levantam a tampa do vaso!
Desculpem o desabafo. Não vou levar para o pessoal.
Na verdade não é que as mulheres tem as mãos mais sujas, mas sim que suas mãos tem maior diversidade, ou seja, mais espécies de bactérias do que as mãos dos homens.
O estudo feito na Universidade de Colorado em Boulder, e publicado na revista PNAS coletou as bactérias das mãos e coletou DNA delas, de uma maneira que pelas diferenças nas sequencias puderam identificar as espécies presentes. 
Essa diferença entre homens e mulheres pode ter relação com a maior acidez das mãos masculinas. Claro que diferenças dos hormônios, das secreções de óleos e o uso de cosméticos podem ter sua parcela de influência nesta diferença também.
Os números da pesquisa são impressionantes:
- Em 102 mãos (duas por pessoa), foram achadas 4700 espécies diferentes de bactéria. E dessas, só cinco espécies eram compartilhadas pelos 51 participantes.
- As mãos direita e esquerda de um mesmo indivíduo compartilham apenas 17% de espécies, e entre os voluntários, apenas 13% de compartilhamento de mesmas espécies.
- Após lavar as mãos, algumas espécies diminuem, mas outras aumentam, e pouco tempo depois a diversidade de antes da lavagem é restabelecida
- A diversidade nas mãos é três vezes maior que a do antebraço ou do cotovelo, e parece ser maior também que mucosas como o esôfago, boca e intestino
O líder do estudo, Noah Fierer, diz que o vê corpo como um continente de zonas ecológicas microscópicas, com diversidade comparável com o fundo do oceano ou uma floresta tropical.
Se você, leitor, tem TOC com mania de lavar as mãos, por favor, me desculpe pelo post. Era meu dever informar. Mas acalme-se, porque a grande maioria destas bactérias não faz mal. Aliás, fazem bem, mantendo as que causam doenças longe.
Vi no Eureka Science news
P.S.: Será que é por isso que não apertamos as mãos das mulheres, e só as beijamos no rosto? Este costume teria sido selecionado pela nossa evolução para evitar a perpetuação de bactérias pela população?
Claro que não. Foi só um pensamento idiota que me passou pela mente. Não que nossa cultura não possa ser moldada por fatos como este, mas é que não se fazem mais cavalheiros que beijam as mãos de suas donzelas como antigamente.
Ao invés de querer seqüenciar todo o genoma de uma pessoa, que tal simplificar e seqüenciar só os trechos que vão virar realmente proteína? Essa parte representa só 1% do genoma, o que reduz o esforço em muito. Adicione a isto as informações médicas detalhadas sobre a tal pessoa. Faça isso com 100.000 pessoas e disponibilize para todos o mundo as informações. Este é o Projeto Genoma Pessoal (PGP), realizado pela Havard, que tem por objetivo ceder informações sobre a tecnologia de genoma pessoal de forma correta, responsável e efetiva.
Para começar foram recrutados 10 voluntários muito bem informados sobre a tecnologia, como o próprio idealizador do projeto, George Church (aqui num artigo da Wired, o diretor da 23andMe Esther Dyson, o lingüista Steven Pinker e o professor e blogueiro Misha Angrist.
Você também pode se voluntariar no site do projeto. Mas cuidado, afinal seu relato médico vai ficar online para o mundo todo, desde problemas cardíacos até frieiras no pé ou impotência. Afinal é um banco de dados onde vai ficar tudo armazenado e aberto para qualquer um fazer pesquisa. Inclusive alguém pode querer saber se pessoas com impotência têm mais da proteína X ou Y, coisas desse tipo.
O projeto tem como objetivo também seqüenciar o genoma inteiro destas pessoas. O que não vai demorar muito, já que o preço e a velocidade dos seqüenciamentos estão diminuindo vertiginosamente.
Como as pessoas, e o resto do mundo, reagirão tendo suas informações genômicas em mãos? É isto que todos queremos saber. E o PGP vai nos responder.
Vi no Genetic Future
Artigos do MIT Technology Review e do The New York Times
Artigos RNAm sobre o assunto
Sabe quando uma informação já está na sua cabeça, mas você nunca parou pra pensar realmente nela, e de repente alguém fala disso e você grita “NÓÓÓSSA, é mesmo”! Pois é, minha cabeça explodiu desse jeito agora.
A evolução é a chave da nossa existência, correto? Bom, pelo menos para nós biólogos sim. Mas “evolução não é uma coisa ou uma força, é um processo, uma idéia. Que está repleta de fatos e mecanismos. Os principais são: mutação, seleção, deriva genética e recombinação. Sendo que a mutação é a base, pois todas as outras dependem da variabilidade que ela gera. Pois bem, as mutações são falhas ao copiar o DNA, que podem acontecer por fatores externos (radiação UV, temperatura, ataque químico) ou internos, na hora da divisão celular.
Quais as células mais propensas a mutações? As que se dividem mais. Células da pele e as da medula que produzem células do sangue, por exemplo. Mas essas mutações não têm importância evolutiva porque não passam para os descendentes. Um tipo de célula que se divide pra diabo é a que faz espermatozóides. Milhões e milhões deles. Milhões e milhões de divisões celulares. Milhões e milhões de… MUTAÇÕES! (existem sistemas de reparo, mas eles falham, afinal são humanos. A prova disto é que nós não temos mais rabos ou barbatanas)
Sendo assim, os homens são os responsáveis pela evolução da espécie humana!!! (Vide o video de Michael Lynch na FAPESP)
Leitor-interlocutor diz: “E essa foi a idéia que fez explodir sua cabeça?!”
Poxa, sim… é que como eu disse, nunca tinha pensado nisso, mesmo tendo todas as informações na cabeça.
Ok, não vou apelar, os homens só são os maiores responsáveis pelo aumento na variabilidade. Mas se quem escolher os parceiros for a mulher, elas estariam comandando a seleção. Qual é mais importante, variação ou seleção? É, não dá pra decidir quem guia a evolução humana.

Anotar um genoma é garimpar as sequências repetitivas das quatro letrinhas que formam o DNA, A-T-C-G, de um organismo. E a recompensa do garimpo é achar informação relevante, como sequências de genes e regiões reguladoras. A melhor tática usada para fazer isso, depois que conseguimos seqüenciar o genoma, é comparar a sequência adquirida a outra já mais caracterizada. Por isso é importante a troca de informação entre cientistas de diferentes projetos de seqüenciamento, anotação e caracterização.
Agora até pela Wikipedia é possível trocar informações sobre genes. Pesquisadores montaram um modelo de página na Wiki que interage com vários bancos de dados e permite acrescentar informações sobre genes, assim qualquer pessoa pode colaborar adicionando ou corrigindo as informações referentes àquele gene.
Apesar de os autores do modelo dizerem que a anotação de sequências de mamífero tenha duplicado, e que as informações são relevantes e muito utilizadas, mais tempo deve ser dado para que possamos saber se esta autogestão do estilo wiki vai ser importante para a anotação de genomas.

Deu na Science: a influência na determinação da sexualidade é influenciada mais pelo ambiente que pelos genes. Ou seja, a criação, a cultura ou mesmo a gestação, têm juntos um papel preponderante na determinação das preferências sexuais. Pelo menos este estudo indica que os genes são responsáveis por 34% a 39% das diferenças entre os dois grupos estudados. Que grupos são esses? Ora, as melhores fontes para este tipo de estudo: super-gêmeos ativar! Um grupo de gêmeos idênticos, que são clones humanos naturais criados no mesmo ambiente, comparados com um grupo de gêmeos fraternos (ou seja, também a mesma criação mas genomas diferentes), se houver um bom número de cada, você pergunta o que quiser. Se for mais genético, os gêmeos idênticos vão ter mais que os fraternos. Simplifiquei, mas basicamente é isso.
E o que isto tem a ver com o tal Cão-herói do título? Veja só, deu no Estadão:
Cão que participou de resgate a vítimas de 11-9 será clonado. (…)O cão foi selecionado através de um concurso do laboratório BioArts Internacional que o elegeu como o cão mais “digno de ser clonado”(…).
E de que adianta? Só porque geneticamente o clone vai ser igual, quem disse que vai ser tão bom quanto o original? Temos visto que estas características complexas, desde sexualidade humana até “capacidade de resgate” canina, se devem muito mais às infinitas variáveis do ambiente que às sequencias de ATCG.
E uma coisa que achei bizarra: “eleito o mais digno de ser clonado”? Perigoso isso, não?

Passei pela banca esta semana (coisa que a muito não faço por ter tanta coisa pra ler na internete) e me chamou a atenção a capa da revista Exame com uma dupla fita de DNA na capa. “Seu DNA vale bilhões” é o que diz a chamada. Claro, comprei a danada.
Muita coisa eu já havia escrito aqui (o que me alegra por saber que não estou defasado, e me entristece porque eu queria escrever um artigo maior justamente sobre isso). O foco são os testes genéticos e as empresas que estão surgindo neste ramo. Também cita o que empresas grandes como a Nestle e Siemens estão fazendo para se preparar para este novo movimento da “genômica pessoal”.
Quase soquei o computador quando vi que a matéria está disponível online e eu não precisava ter comprado a revista. No site da Exame tem um video de 2 min. sobre o tema. Mostra a repórter na exposição Revolução Genômica, que está rolando no Ibirapuera até julho, e o laboratório da Nestle aqui no Brasil.
Na verdade não comprei a revista a toa, já que o mais interessante da reportagem, na minha opinião, foi o relato de Maurício Lima sobre o exame genético que ele testou, e infelizmente não foi disponibilizado online. Neste relato ele conta que comprou o kit por 1000 dólares, cuspiu no potinho, e enviou esta amostra de volta ao laboratório da empresa 23andMe. Muito tempo depois obteve a resposta com o acesso online a algumas sequências, não do genoma inteiro, e sua comparação com estudos já realizados.
Basicamente se determina qual cópia de um gene relacionado a alguma doença você tem. Algumas cópias estão mais presentes em doentes. Daí se tira a tal chance de desenvolver a doença, coisa que é totalmente virtual, já que não se pode garantir que você terá ou não terá a doença. Mesmo ele sabendo disto, ficou ansioso ao saber que tem chance maior que a média de ter uma doença nos olhos que pode deixar a pessoa cega.
Se você se interessa pelo assunto, vale a pena comprar a revista Exame, e entrar também no site da 23andMe. Lá você pode, sem pagar nada, navegar pelos dados de sequenciamento de uma família fictícia, e ter uma idéia de como funciona o negócio.
P.S.: Esta não é uma postagem patrocinada. Nem pela Exame, nem pela 23andMe. Aliás deixo aqui o alerta de “CUIDADO-Determinismo Genético inside”. Para uma crítica, leia também aqui.
Comentando a notícia: Cientista nega existência de “gene de craque de futebol”
Mais uma área caiu na bravata do determinismo genético. Agora até clube de futebol foi atrás de geneticistas para investir em pesquisa e descobrir o “gene do craque”. Assim, as escolinhas de base poderiam incluir testes genéticos para descobrir quem será o próximo Ronaldinho Gaúcho.
Graças a deus, o geneticista Henning Wackerhage tem a cabeça no lugar, e falou que “não há e nem haverá um teste para identificar o próximo Cristiano Ronaldo.”
“Um grande jogador precisa de condições cerebrais, noção de bola, condição física e uma série de coisas nas quais entram em jogo (atentem para o trocadilho “entrar em jogo”) cerca de 500 genes”, diz Wackerhage indicando o impedimento.
Não só isso, meu querido Wackerhage. São 500 genes e treino, muito treino. Afinal, quem disse que a falta de um gene não pode ser compensada com MAIS treino?
Claro que o geneticista não poderia deixar de puxar a sardinha para o seu lado, quando afirma que tendências para esportes menos complexos, como os 100 metros rasos, poderiam ser detectadas no futuro. Só não sei qual critério ele usa para definir um esporte como menos complexo que outro. Cartão amarelo para ele.
E mesmo que tais testes fossem possíveis, não poderiam ser usados por empresas. Muito menos para contratação (como já foi escrito aqui).
Mas que seria desejável um teste genético para selecionar cartolas de futebol, isso seria.









