Se você viu a história do Fantástico deste domingo sobre o dedo regenerado, dê um sorriso discreto. Orgulhe-se da pessoa bem informada que você é, pois até já sabe do que vai falar este blog. Será que sabe mesmo?

E se eu disser que é bem possível isso ser balela? E se, não eu, mas o maior caçador de mitos científicos atuais, que realmente disse isso? Você acreditaria?

Pois é. Tudo parece ser, se não uma farsa, pelo menos um exagero tremendo. No blog Bad Science de Ben Goldacre, o tal perseguidor da má ciência, já havia sido denunciado isto dia 3 de maio (note, a reportagem do Fantástico saiu dia 25 de maio). O tal pó de bexiga de porco teria feito o dedo de um senhor se regenerar. Mas analisando as poucas fotos, um especialista em cirurgia de mãos Simon Kay diz que o ferimento não parece ter atingido o osso, nem a raiz da unha como dito da reportagem. E se isto não acontece, é mais que natural e normal a ponta do dedo crescer e ficar como antes. Ao pedido de mais fotos, não houve resposta.

Mas porque a farsa? O cientista que aparece, dr. Badylak diz a Goldacre que a história vazou na mídia antes de ser publicada como artigo científico, e na verdade não há um estudo preparado. No Fantástico, o tal amputado diz que utilizou o tratamento sugerido pelo irmão veterinário, já falecido. O que não se fala é que o falecido irmão é dono de uma empresa de biotecnologia chamada Acell, que produz o tal pó. Marketing ou homenagem póstuma? E porque não as duas?!

Aliás chamam o pó extraído da bexiga do porco de matriz extracelular, como se só lá houvesse tal matriz. TODOS os nossos tecidos possuem matriz extracelular em torno das células. Esse nome é o mais genérico possível.

Mas não critiquemos a pobre da Globo pela mancada. Esta notícia pode ser velha, afinal apareceu em fevereiro de 2007 no Wall Street Journal, MSNBC, e agora aparece novamente na BBC, Fox e ABC. É o famoso telefone sem fio das agências de notícias. O Fantástico acabou caindo nesta armadilha, que já estava mais do que desarmada.


Você já se perguntou o que raios é gordura trans? Talvez tão importante quanto isto seja a pergunta: podemos confiar nos alimentos com os dizeres “0% Trans”? Pasme. A resposta para esta última pergunta parece ser NÃO! Já explico…

Primeiro o que é gordura trans. Não vou re-escrever aqui o que está tão didático e sucinto no site da todo-poderosa ANVISA (Agência Nacional de Vigilância Sanitária). Lá você acha o que é a gordura trans (está curtinho, vale a pena. Leia e volte para esta postagem!). Aqui vai também um videozinho do Mcdonalds (sim, ele mesmo), que explica a mesma coisa do texto da ANVISA e o porquê de se ter usado gorduras trans na indústria até hoje. Mas não é merchandising meu. O vídeo é bem feitinho, só tem aquela puxada de sardinha básica, mas você, leitor crítico, sabe bem perceber esse tipo de interesses.

Até aí ok, mas percebam que não há níveis seguros de gordura trans. E se nem no vídeo institucional do Mac eles falam que as batatas deixam de ter trans (elas apenas tem menos desta gordura), qual o segredo dos produtos serem ZERO TRANS? Ora, tudo uma questão de lingüística, meu caro. Novamente aqui, recorrerei à ANVISA, que é quem decide o que deve estar no rótulo ou não. Esta pergunta é do FAQ da ANVISA:

Pode ser utilizado o claim (alegação) “livre de gorduras trans” nos rótulos dos alimentos?

Sim, desde que o alimento pronto para consumo atenda às seguintes condições: - máximo de 0,2g de gorduras trans por porção; e - máximo de 2g de gorduras saturadas por porção. Os termos permitidos para fazer este claim são: “não contém…”, “livre…”, “zero…”, “sem…”, “isento de…” ou outros termos permitidos para o atributo “Não contém” da Portaria SVS nº 27/98. Não podem ser utilizados outros atributos para gordura trans.

Hum, ok. Então se o produto tiver menos de 0,2g por porção posso pôr “0% Trans” na embalagem. E quem define quanto é uma porção? A ANVISA de novo, menos para os produtos de “consumo ocasional”, como sorvetes, balas pirulitos, e imagino que salgadinhos e bolachas também entrem nessa categoria. Portanto, quem produz esse tipo de alimento é quem decide quanto é uma porção.

Notaram o estratagema? Explico. Um pacote de batata frita “0% TRANS” tem 150g, mas a porção indicada na embalagem é 15g. QUEM COME SÓ 15g DE BATATA FRITA?! Só eu, que não sou guloso, como dois pacotes de 150g inteiros!!! Mas 15g é provavelmente a porção limite que contém 0,2g de gordura trans permitidas por lei em cada porção. Se for isso mesmo, o pacote inteiro de batata teria pouco menos de 2g de gordura trans, que é o limite máximo que a ANVISA indica por dia numa dieta saudável.
É isso ae, 0% TRANS, 100% malandragem.

P.S.: Algumas coisas hilárias sobre o filme do Mcdonalds:

O cientista genérico do McDonalds - Percebeu que em dado momento o locutor apresenta “o nosso cientista”? Que seria quem mesmo? Não tem nome não?

Dê-me os dados! - Aparece um gráfico com o nível de gordura da batata caindo vertiginosamente. Desculpe a chatice, mas qualquer cientista (ou pessoa atenta) perguntaria: Caiu de “um montão” para “um pouquinho”? E os números?

Olha, não é por nada não, e nem querendo justificar a falta de postagens (já justificando), mas Ô SEMANINHA BRABA! Cientificamente nula!

Claro que nula é um exagero, afinal a pesquisa não pára, mas não tivemos nenhum grande furo. Tivemos a publicação do genoma do ornitorrinco esses dias, muito comentado por aí. Mas genoma de novo? Cansei. Será que este doutorando está perdendo a empolgação? Jamais! Mas é que o mundo tem sua parcela de responsabilidade para com a minha criatividade de divulgador de ciência. Um material diferente só pra variar um pouquinho é sempre bom.

Acho que estou dependendo muito de internet.

No começo, quando se aprende a usar a internet, ficamos empolgadíssimos com a quantidade de informação disponível. Mas quanto mais você se acostuma mais, vai percebendo que as pessoas estão falando sempre da mesma coisa e, muitas vezes, mais ou menos do mesmo jeito. Meia dúzia de pontos de vista: o que informa, o que opina, o que concorda, o que discorda, o extremista de um lado e o de outro.

É… acho que preciso dar uma pausa na net e começar um livro pra chacoalhar a cachola. Alguém sugere algum? Não precisa ser de ciência não.

Aguardo respostas.

Grato


Mais uma vantagem deste que vem se mostrando o elixir alquímico dos neo-natos. Bom pra tudo esse leitinho. Até QI sobe com ele!

Estudo com 14000 crianças acompanhadas até os seis anos mostram que as que se alimentaram exclusivamente de leite materno até os três meses, alguns até 12 meses, têm em média uma pontuação 5,9 pontos maior em testes de QI.

O importante é salientar que não se sabe se o que traz a vantagem é alguma substância do leite, ou se o próprio ato de amamentar e toda a ação e o contato entre mão e filho envolvidos no processo. Ou seja, o leite pode conter alguma substância que alimente o cérebro do bebê, ou o fato da mãe conversar com o bebê, e até mesmo o toque em si, que pode estimular liberação de hormônios na criança, podem ser os responsáveis pelo aumento do QI.

A lição, mamãe, parece ser mesmo “amamente o quanto der”.

Mas se você está grandinho demais para mamar, aqui estão as dicas para melhorar seu desempenho cerebral!

BBC: Breastfeeding ‘helps to boost IQ’


Comentando a notícia: Cientista nega existência de “gene de craque de futebol”

Mais uma área caiu na bravata do determinismo genético. Agora até clube de futebol foi atrás de geneticistas para investir em pesquisa e descobrir o “gene do craque”. Assim, as escolinhas de base poderiam incluir testes genéticos para descobrir quem será o próximo Ronaldinho Gaúcho.

Graças a deus, o geneticista Henning Wackerhage tem a cabeça no lugar, e falou que “não há e nem haverá um teste para identificar o próximo Cristiano Ronaldo.”

“Um grande jogador precisa de condições cerebrais, noção de bola, condição física e uma série de coisas nas quais entram em jogo (atentem para o trocadilho “entrar em jogo”) cerca de 500 genes”, diz Wackerhage indicando o impedimento.

Não só isso, meu querido Wackerhage. São 500 genes e treino, muito treino. Afinal, quem disse que a falta de um gene não pode ser compensada com MAIS treino?

Claro que o geneticista não poderia deixar de puxar a sardinha para o seu lado, quando afirma que tendências para esportes menos complexos, como os 100 metros rasos, poderiam ser detectadas no futuro. Só não sei qual critério ele usa para definir um esporte como menos complexo que outro. Cartão amarelo para ele.

E mesmo que tais testes fossem possíveis, não poderiam ser usados por empresas. Muito menos para contratação (como já foi escrito aqui).

Mas que seria desejável um teste genético para selecionar cartolas de futebol, isso seria.

Aqui a notícia:

Cientistas e juristas questionam pesquisas com células-tronco
Grupo divulgou um manifesto contra pesquisas com células-tronco embrionárias.
Tema está em discussão no STF; julgamento foi interrompido em março.

Não vi a declaração, mas os dois pontos ressaltados na reportagem são argumentos já exaustivamente debatidos: a vida começando na concepção (só que a questão não é com a vida, a questão é quando começa o “indivíduo”); e o direito dos pais sobre a vida dos embriões. Aqui o argumento ganha um novo fator apelativo, onde até a onipresente menina Isabella é citada como mau exemplo do poder de vida e morte que pais têm sobre os filhos. Grande argumento, que acaba caindo no anterior: e se um embrião não for considerado uma criança? Gente, vamos tentar não apelar, ok?

Resumindo, a notícia é esta: Nada de novo.

Veja o que já foi escrito sobre isto neste blog


Heparina, uma droga que serve para afinar o sangue, e é amplamente usada na medicina, principalmente por quem faz hemodiálise, é a pivô desta história macabra.

81 americanos já morreram devido a lotes da droga que estavam contaminados. Acidente? Impossível, pelo número de lotes contaminados (quase um terço). Portanto o FDA (departamento que regula alimentos e medicações nos E.U.A.) já trabalha com a hipótese de contaminação intencional. Parece que a substância contaminante é um equivalente da heparina, só que 100 vezes mais barata.

Subindo na cadeia de distribuição e produção da heparina, chega-se a uma subsidiária chinesa da empresa americana que fabrica a droga. E na busca por descobrir a fonte da contaminação a FDA foi barrada pelo governo chinês: “Se quiserem entrar em nossas fábricas, iremos entrar nas suas também!” é o que dizem.
Inspeções em fábricas estrangeiras é uma praxe no mundo das importações de matéria-prima, mas nem sempre suprem o desejado. Para realizar todas as inspeções necessárias, a FDA gastaria U$255 milhões a mais, anualmente. Este ano ela gastará U$11 milhões.

Fico imaginando com deve ser no Brasil este processo de importação de insumos para saúde. Sinceramente não sei como é, mas eu que não procurei direito ou este tipo de história não interessa a imprensa? Contaminação por produtos importados é algo que nunca aconteceu por aqui? Porque do mesmo jeito que compramos iPods feitos na China, por ser bem mais “balatinho”, também o governo e as empresas compram seus insumos do gigante ex-adormecido. Mas se ele continua fechado da maneira como se mostrou no caso americano, que garantia teremos? Bom, sem querer bancar o hippie pedante, mas já o fazendo, eu digo: é o capitalismo selvagem.

Falando nisso, um adendo “acientífico”:
Em um texto de Slavoj Zizek no caderno Mais!, da Folha de domingo passado, ele fala de um ponto interessante sobre a China. Se economicamente ela der certo, não só ficará o mundo todo dependente dela, mas isto provará que o capitalismo não precisa da democracia para se sustentar. Esta era tida como condição para o capital, mas pode acabar se mostrado desnecessária pelo exemplo Chinês. Acho que a ditadura era assim, não?


Reportagem New York Times