Desculpe a redundância de assunto, mas peço que não me culpe. Culpe sim as agências de notícias nacionais e mundiais. Mais uma reportagem com informações incompletas, sem link para fontes, e fontes que mesmo com eforço não pude achar.

‘Nariz artificial’ permitirá encontrar tumores cancerosos

E desta vez percebi que quase todos os sites de notícias mais importantes (globo, uol, terra, folha) simplesmente recortaram e colaram a notícia de uma fonte (EFE), que a copiou de outra fonte (Yedioth Ahronoth, site de notícias israelense no qual não achei a referida reportagem).

Será que só eu fiquei curioso em saber o COMO do funcionamento do tal aparelho, ou é o tipo de informação que não poderia faltar nesta notícia?

Não precisa ser nenhum biólogo ou médico oncologista para sentir um leve incômodo com o titulo da reportagem da folha online desta semana: Tequila diminui risco de câncer. Assim que li percebi que tinha algo estranho nisso. Fico imaginando o que levaria um pesquisador a jogar tequila nas plaquinhas de células ou a dar de beber a seus camundongos. Indo a fundo, percebi que a folha simplesmente repassou a informação de outra agência de notícias, a ANSA. Esta, por sua vez, cita um artigo de uma tal Associação Americana de Química, que com certa dificuldade fui descobrir que se trata da American Chemical Society.

Claro que ao ler o artigo original descubro que os pesquisadores usaram apenas o extrato da Agave, planta da qual se faz a tequila (e a relação do trabalho com a tequila termina aqui), para utilizar como carregador de medicamentos e fazer com que estes passem pela acidez do estômago.

Vários são os problemas que podemos encontrar nesta reportagem e que estão muito presentes nesse tipo de notícia online:
- bom, o título é uma pérola, reflete o erro da informação da reportagem em nome do sensacionalismo;
- nenhum link direto para a fonte foi disponibilizado, o que dificulta a confirmação e o aprofundamento na notícia;
- o nome da fonte original foi traduzido de uma maneira que não permite procurá-lo com facilidade em sistemas de busca como o Google, sendo o melhor deixar o nome original;
- a aparente falta de comprometimento das agências de notícia em confirmar as informações técnicas de suas notícias, sendo a solução um consultor técnico da área (com tantos biólogos desempregados por aí).

Assim como não precisa ser biólogo ou médico para perceber esses disparates, também não é preciso diploma para relatar erros ou confusões e exigir uma posição das agências de notícias. Neste caso a Folha e a ANSA já foram notificadas. Claro que um puxão de orelha a mais é sempre bom, portanto se sintam a vontade para enviar suas impressões e reclamações a ambas.


Estamos cada vez mais perto de um dos sonhos da medicina: a medicina personalizada. A idéia é simples, conhecer cada pessoa, sua fisiologia, psicologia e genoma, e prevenir ou tratar cada um de acordo com as suas características especificas. Afinal somos diferentes uns dos outros, temos resistências diferentes a doenças e respondemos de maneiras diferentes aos tratamentos. Os seqüenciamentos pessoais de genoma terão um papel essencial nessa nova medicina.

Hoje em dia ainda é demorado e caro fazer seqüenciamento de um genoma inteiro, mas a perspectiva de isso vir a ficar mais fácil é clara. Recentemente um grupo anunciou o seqüenciamento de dois cromossomos de um indivíduo. O líder do grupo, que teve seus cromossomos 23 seqüenciados descobriu algumas coisas interessantes com isso: a seqüência de seu gene ABCC11 indica que ele tem tendência a ter cera de ouvido úmida ao invés de seca; uma repetição de quatro seqüências antes de seu gene MAOA indica um comportamento social normal, já que a presença de apenas três dessas seqüências ocorre em muitas pessoas com comportamento anti-social. Também algumas informações preocupantes foram descobertas. O seu gene APOE está associado a maior risco de doenças cardiovasculares e Alzheimer, e a sua variação do gene SORL1 também está ligado a Alzheimer.

Ótimo saber tudo isto certo? Agora podemos estar mais atentos e prevenir este cara contra estas doenças indicadas pelos seus genes! Mas vamos nos por no lugar do cidadão que foi seqüenciado. Essa tendência a Alzheimer não deve ser fácil de esquecer. Como lidar com esta situação? Muita gente pode se derrotar ou ficar com aquele fantasma da doença que pode aparecer a qualquer momento. Afinal não há ainda cura para isto. Devemos ter claro que estas ligações entre genes e doenças são produto de pesquisas que comparam seqüências de genes de pessoas que tem e não tem Alzheimer, por exemplo. Algumas variações podem estar muito ligadas à doença, e vão aparecer bastante no grupo dos doentes e não muito nos saudáveis. Mas não há um fatalismo, nada é certo. Alguns doentes podem não ter a variação e não-doentes podem possuí-la.

Além do peso psicológico que estes seqüenciamentos pessoais carregam há ainda outras questões em jogo. Como uma empresa de seguros agiria tendo em mãos o perfil genético de seus clientes? Fica claro que a chance de quererem cobrar de forma diferenciada, simplesmente com base nas tendências, é grande. Cobrar por doenças que ainda não surgiram se é que vão surgir. O mesmo vale para a contratação em empresas. Além de provas, entrevistas e dinâmicas, uma gota de sangue poderia ser parte da seleção, e a contratação dependeria de seu perfil genético. Claro que isto seria a base para a descriminação genética, já imaginada no filme “Gattaca“. Mas a sociedade parece estar se prevenindo. Leis que proíbem o uso de informações genéticas por empresas e que garantem a liberdade do indivíduo querer saber ou não essas informações estão sendo aprovadas nos Estados Unidos e discutidas por todo o mundo.

Referências:

Your Genes and Privacy - Louise M. Slaughter, Science 11 May 2007: Vol. 316. no. 5826, p. 797

All about Craig: the first ‘full’ genome sequence - Heidi Ledford,Nature Vol 449|6 September 2007

É com grande satisfação que informo que um artigo baseado em um post deste blog foi publicado.

A revista PSIQUE se interessou pelo post “Genoma do homem de neandertal, e daí?” e pediu um artigo ampliado desenvolvendo o tema. O resultado é o artigo “Humano demasiado humano” publicado na edição 21 da revista Psique, neste mês de setembro. Esta pode ser encontrada numa banca de jornal perto de você.


Não é difícil aceitar que nossos cérebros produzam nossos pensamentos. E que diferenças entre cérebros possam gerar as diferenças de pensamento de um indivíduo para outro. Mas difícil é aceitar essa idéia no dia-a-dia, aceitar que os nossos pensamentos são estruturados, e que seguem padrões e tendências neurofisiológicas. Talvez por isso uma notícia recente tenha causado espanto. Descobriu-se que pessoas classificadas politicamente como liberais ou conservadoras se mostram diferentes nas respostas a estímulos.

Um teste simples foi feito. Primeiro um questionário classifica se o indivíduo é liberal ou conservador; um teste de resposta “go\don´t go”(vai\não-vai) é aplicado e consiste em observar a aparição das letras M e W numa tela. Sempre que aparecer um M o indivíduo aperta uma tecla. Mas às vezes aparece um W e a tecla não deve ser apertada. Como 80% das vezes é um M que aparece e como o W se parece muito com a outra letra, a tendência é acabar apertando o botão quando o W aparece.

O resultado foi o seguinte: os liberais erraram menos, o que indica que respondem melhor a este teste. Como os participantes estavam ligados a um eletroencefalograma (aparelho que mede a atividade de regiões do cérebro) pôde-se perceber também que os liberais tinham uma maior atividade na região do cérebro que está ligada a analise e resolução de conflitos. Dá a entender que liberais se adaptam mais rápido a mudanças para corrigir suas respostas.

Isto quer dizer que liberais são melhores? Não sejamos precipitados. Ambas as estratégias existem há muito tempo ao longo da história humana. Isso provavelmente quer dizer que ambas são vantajosas. Qual a mais moral ou ética já é outra questão mais difícil de responder.

http://scienceblogs.com/cognitivedaily/2007/09/the_claim_politically_liberal.php

http://www.latimes.com/news/science/la-sci-politics10sep10,0,5982337.story?coll=la-home-center

“A diferença entre humanos e chimpanzés é de apenas 1%!”. Este é um dos dados mais usado pelos evolucionistas em discussões, pois nele está implícita a base da biologia evolucionista: que todos os seres vivos são aparentados e que nem o Homo sapiens escapa desta família. Prova disto seria a proximidade genética com outras espécies de animais, como o chimpanzé por exemplo. Mesmo num artigo anterior, neste mesmo blog (”Genoma do Homem de Neandertal. E daí?”), foi citada a tal diferença de 1 % para chimpanzés e 0,5% para o Homo neanderthalensis. O problema é que a coisa não é tão simples assim.

1% de que? Esta porcentagem, que ficou famosa em 1975, foi confirmada recentemente com o seqüenciamento do genoma do chimpanzé. Mas percebeu-se que este 1% (1,23% na verdade) se refere apenas a substituições de bases, ou seja, troca das moléculas que formam a seqüência do DNA. Trocar um A (adenosina) por um G (guanina), por exemplo. Mas os pesquisadores perceberam que estes 1,23% não levavam em conta trechos inteiros inseridos ou excluídos nos genomas. Levando isto em conta a porcentagem da diferença sobe para 3%. Analisando ainda as diferenças nos números de cópias de genes das duas espécies chegamos a 6,4% de diferença. E se considerarmos só os genes que estão funcionando em determinadas regiões de um tecido, por exemplo o cérebro, essa diferença de expressão pode chegar a 17%.

Na verdade é impossível calcular um número que defina a diferença absoluta entre qualquer espécie. Nas palavras de um pesquisador do consórcio para o seqüenciamento do chimpanzé: “No fim, nossas diferenças serão definidas no âmbito político, social e cultural”. E talvez seja nisso que os evolucionistas citados no inicio do texto possam apostar suas fichas. Não na porcentagem molecular, mas no incalculável e inegável reconhecimento de algo quase humano no olhar de um chimpanzé.

Referência:

  • Relative Differences: The Mith of the 1% - Science, 29 de Junho 2007

  • Embrião híbrido humano-animal. Seria isto um tipo de Frankenstein? Na verdade é o mesmo principio usado na clonagem da ovelha Dolly. Se pega um óvulo, retira-se o núcleo e introduz-se um novo núcleo de uma outra célula adulta. Só que neste caso o óvulo é de um animal qualquer e o núcleo de uma célula de algum tecido humano já adulto, como pele, mama, ou qualquer outro.

    Este assunto entrou em pauta esta semana devido à aprovação do uso de embriões híbridos para pesquisa no Reino Unido.

    Está técnica vem para ajudar os cientistas a estudar células embrionárias e tocar suas pesquisas em doenças como Alzheimer e Parkinson. Assim, não seria necessário o uso de embriões humanos para tais pesquisas. A idéia é não sacrificar humanos concebidos naturalmente, mas criar estes híbridos e não ter mais que enfrentar os famosos problemas éticos envolvidos em pesquisas com células-tronco embrionárias. Mas lembre-se que o embrião gerado possui 99,9% de genes humanos. Seria ele então um embrião “humano”? Não teria ele também os mesmos direitos? Bem, a Igreja Católica já respondeu mais no sentido de enfatizar sua posição de que embriões são seres humanos, e, portanto, merecedores de respeito. Como publicado no site G1 “No final de junho, o Papa Bento XVI lembrou da posição da Igreja Católica sobre o tema, que estipula que ‘a investigação científica deve ser fomentada, mas não deve se desenvolver em detrimento dos outros seres humanos, cuja dignidade é intocável desde os primeiros momentos da existência’”.

    É, talves o híbrido não tenha vingado na arena da briga ética, mas é fato que traz vantagens técnicas para a pesquisa. Será que caímos no mesmo erro do Dr. Frankenstein, desumanizando nossa criação?

    Importante dizer também que a regulamentação só foi autorizada após vários meses de consulta com a população. 61% dos britânicos foram a favor da autorização, e 25% se opuseram. O quanto essas pessoas entenderam do processo e suas implicações é sempre difícil saber, mas pelo menos alguém perguntou.



    A Walt Disney company está em pé de guerra com uma faculdade dos EUA, por causa de uma pesquisa recente. Parece que a exibição de vídeos e DVDs para bebês, incluindo uma marca da Disney chamada “Baby Einstein”, pode estar ligada a dificuldades no desenvolvimento de linguagem.

    Este estudo foi publicado em agosto e concluiu que bebês com idade entre 8 e 16 meses que assistiram aos DVDs uma hora por dia pontuaram menos que outras crianças em um teste que avalia desenvolvimento comunicativo. Um dos pesquisadores chegou a dizer que prefere que os bebês assistam “American Idol” (a versão americada do programa “Ídolos”) no lugar dos vídeos. Claro que a Disney se defendeu pondo em dúvida a seriedade do estudo, dizendo que a metodologia é duvidosa, os dados anômalos e as medições não confiáveis. Num comentário publicado na Nature, foi citado o porquê da agitação.

    Esta pesquisa pisou num calo da Disney, que com essa linha de DVDs para bebês, pretende faturar U$ 1 bilhão de dólares até 2010. Mas mesmo a especialista em Desenvolvimento Infantil e Televisão convidada pela Disney para comentar a pesquisa não foi enfática na defesa da empresa. Disse apenas ter algumas discordâncias metodológicas, mas que algumas conclusões são válidas e motivam mais estudos no assunto.