Dando continuidade ao post sobre cores aposemáticas e mimetismo, aproveito para legendar as figuras de sexta-feira - aliás, tenho que arrumar enigmas mais complicados, responderam até o gênero no post passado!!
O mimetismo Batesiano ocorre quando uma presa inofensiva imita uma presa perigosa tirando proveito da “fama” entre os predadores. O caso mais estudado é o mimetismo entre borboletas, como a borboleta monarca. Dona de um gosto muito amargo, ela é evitada por diversas aves, e tem o seu padrão de cores e desenho imitados por outras borboletas que não são venenosas.
Abaixo estão várias fotos de insetos que mimetizam vespas e abelhas. De moscas à besouros. Olhando as fotos com mais cuidado, você pode se perguntar se elas realmente enganam o predador ou não. E a resposta é: na maioria dos casos, sim.
Dois fatores contribuem para que o predador seja enganado mais facilmente:
A relação velocidade/acurácia - Enquanto você tem tempo e calma para poder analizar as fotos, inclusive com um bom zoom, nem sempre esse é o caso do predador. Predadores estão submetidos ao gasto energético da descriminação de presas. Quanto mais apurada a avaliação for, mias energia consome e mais tempo. Basta pensar numa mosca com um disfarce bem ruim, mas com as cores preta e amarela vindo em sua direção, mesmo não tendo certeza de que é uma vespa, te garanto que você vai evitá-la.
A categorização - Como conseqüência do problema acima, e de forma a evitar o gasto de energia, muitos predadores utilizam a categorização. Toda presa com um formato ou cor estabelescidos devem ser evitados.


© Mdf

As moscas-das-flores são moscas da Família Syrphidae que se alimentam de polém. Mimetizam principalmente vespas, nem sempre muito bem, aqui estão as melhores que encontrei. A Ceriana vespiformis, das duas primeiras fotos, só se entrega pelos balancins ou alteres. As abelhas e vespas são da ordem Hymenoptera e possuem quatro asas, o primeiro par é maior e se prende nas asas de trás usando pequenos ganchos que se ligam como velcro. Já as moscas são da ordem Diptera e possuem apenas um par de asas, o segundo par foi transformado em estruturas que balanceiam o vôo chamadas alteres ou balancins, dando a estabilidade que pernilongos e moscas-varejeiras têm para permanecerem voando no mesmo ponto. Reparem na estrutura amarelinha do tórax da mosca na primeira foto, entre a asa e a pata do lado esquerdo.
© gorpie
Esta aqui é uma mariposa. Achei a mais fantástica de todos os mímicos, parece uma vespona gigante. Inclusive o vôo é parecido, repare no vídeo:

Aqui são dois besouros, o primeiro é de uma espécie não identificada e o segundo é o Clytus arietis.
© Artigo PLoS na fim do texto.
Outra mosca-das-frutas, esta aqui imita uma mamangaba.
Segundo a Rafaela, trata-se de uma mosca da Família Bombyliidae, esta aqui imita uma abelha.
Fonte:
Lars Chittka and Daniel Osorio, “Cognitive Dimensions of Predator Responses to Imperfect Mimicry,” PLoS Biology 5, no. 12 (December 1, 2007): e339 EP -, doi:10.1371/journal.pbio.0050339.
Qual o sentido de se ter um bom alarme de carro, se você não avisar o ladrão?

Encosta pra você ver!
Já me explico. Quando se instala um bom alarme no carro, a idéia é evitar o roubo, mais do que impedir. Melhor que nem tentem roubar, do que quebrarem uma janela, fechadura e tudo o mais para depois descobrir que não adianta tentar levar o carro.
Pensei nisso esses dias, vendo a notícia de que o MASP agora está muito mais equipado com sistemas de segurança (antes tarde do que nunca). Na notícia, uma repórter mostrava que o museu agora tem câmeras com muito mais definição, capazes de seguir movimentos, detectar quadros removidos, sensores de presença e detectores de metal. O âncora do jornal criticou a postura do MASP de revelar os alarmes, mas a idéia é justamente essa, avisar e desencorajar possíveis ladrões para não ter que usar os alarmes.

©Ror
Mas o que isso tem a ver com evolução? Tudo. Pense em um organismo que possui uma defesa contra predadores muito boa, por exemplo, um veneno sob a pele capaz de matar possíveis atacantes. O que é preferível, levar uma mordida, possivelmente fatal, e se não for fatal, gastar o veneno que custou muito caro para ser feito ou avisar logo que ele é perigoso e deixar para usar o veneno apenas com os mais atrevidos?
Na grande maioria das vezes, organismos perigosos, sejam eles cogumelos, vespas, salamandras, peixes, pererecas ou borboletas, sofrem pressão evolutiva para demonstrar sinais de aviso. Vermelho, amarelo, laranja, azul e outras cores que se destacam, as chamadas cores aposemáticas são utilizadas justamente para dar um destaque ao organismo perigoso. Surge assim um código unversal, presas perigosas são selecionadas para avisar o que contém e predadores são selecionados para reconhecer e aprender quais presas são palatáveis ou não.

© Pompilid
Voltando para o seu carro, imagine que você sabe de um alarme muito bom e conhecido, mas não tem dinheiro para comprar - ou tem o dinheiro e não quer. Da necessidade surge a brilhante idéia, ao invés de comprar o alarme, você falsifica o adesivo que vem com ele e cola no seu carro. Assim, grande parte dos ladrões vai reconhecer o adesivo e procurar outro carro, que não tenha o alarme. Quanto mais parecido com o original, mais eficiente seu adesivo vai ser.
Esse é o chamado mimetismo Batesiano. Situação onde uma presa que não tem uma defesa boa se passa por uma presa perigosa, mimetizando o formato do corpo e/ou as cores de outros mais “famosos”. Dispensa o investimento em veneno, ferrão, sabor amargo e o que mais for usado pelos perigosos.

© fmc.nikon.d40
Cogumelo amanita, recheado de potentes toxinas
Bom para quem pirateia, ruim para o dono do original. Sim, pois uma vez que um predador atacar um imitador cheio de cores aposemáticas e não se ferrar, especialmente se for um predador inteligente como uma ave, vai estar mais disposto a atacar outros coloridos, independente de serem perigosos ou não. Nesse ponto, as cores de aviso dos perigosos perdem todo o sentido, pois a idéia antes de tudo é evitar o ataque.
Que acontece então? Claro, uma dinâmica evolutiva da Rainha Vermelha. Presas perigosas cada vez mais distintas das outras e presas mímicas cada vez imitando melhor as novas características. daí o surgimento de tantas cores e padrões malucos e lindos que estão nas imagens do post.

© Nick Hobgood
Nudibrânquios, moluscos marinhos dotados de veneno e capazes de, ao comer águas vivas, utilizar as células de veneno chamadas cnidários delas para sua própria proteção.

Salamadra de fogo, produz alcalóides extremamente tóxicos na pele, e a distribuição de glândulas de veneno coincide com a região amarela!
A resposta do enigma de sexta-feira passada e fotos de mímicos que utilizam o mimetismo Batesiano, aguardem o próximo post…
Fonte:
Daniel W. Franks, Graeme D. Ruxton, and Thomas N. Sherratt, “WARNING SIGNALS EVOLVE TO DISENGAGE BATESIAN MIMICS,” Evolution (2008), doi:10.1111/j.1558-5646.2008.00509.x.

Chalcites basalis
Cucos também são exemplo para o questionamento de até que ponto os genes podem influenciar um comportamento (Nature vc Nurture). No caso do cuco-canoro ou cuco comum (Cuculus canorus), espécie nativa da Europa, os genes influenciam muito. As fêmeas depositam seus ovos nos ninhos de outras aves e partem para a migração através do Mar Mediterrâneo até a África. Os filhotes, que nascem em ninhos de estranhos são capazes de, ao atingir a idade adulta, fazer a migração para a África sem nenhuma referência prévia, e de quebra encontrar os cucos que já estão lá.
Já vimos que a vida dos cucos e dos hospedeiros é dura, despistar os pais, disfarçar o ovo e até forçar a aceitação. Mas e depois que o filhote nasce, está tudo bem?
Um dos primeiros problemas ao nascer é comida, o cuco rescém-nascido precisa imitar o chamado dos demais filhotes do ninho. Quando há uma coevolução entre uma espécie de cuco e uma espécie hospedeira, isso não é tão problemático, o cuco é selecionado para imitar um canto. Mas o cuco australiano Chalcites basalis vai mais além, ele parasita dois tipos diferentes de aves, o Malurus cyaneus e o Acanthiza reguloides. Pior ainda, ele nasce mais rápido do que os filhotes verdadeiros e joga os ovos para fora, de maneira que precisa imitar o chamado de duas aves diferentes que ele nunca ouviu!
Myrmarachne é um gênero de aranhas saltadoras especializadas em mimetizarem formigas. Como parecem formigas, muitos predadores evitam as aranhas, e por mais que nos pareça estranho ter mais medo de uma formiga do que de uma aranha, basta pensar no estrago que um formigueiro é capaz de fazer. O disfarce destas aranhas também permite que elas circulem entre as formigas, inclusive predadoras de aranhas, mais facilmente. Também ajuda a se aproximar de formigas que sirvam de presa.
Por serem aracnídeos, as aranhas têm um arranjo corporal diferente do das formigas, que são insetos. As aranhas têm 8 patas e não têm antenas, de modo que precisam erguer seu primeiro par de patas para a frente, parecendo antenas. Seu corpo tem 2 segmentos - tórax e abdome - ao invés dos 3 dos insetos - cabeça, tórax e abdome. E por último, aranhas têm mais do que 2 olhos.
As figuras abaixo mostram várias aranhas que mimetizam formigas, não necessariamente todas são Myrmarachne sp..



Tarefa para o fim de semana, repare nas fotos abaixo, e descubra o que estas formigas têm de estranho. A resposta virá em breve!
[update] Não são formigas, são aranhas!! A explicação aqui. O Mallmal trocou as bolas, o João Carlos percebeu que eu nomeei as figuras com os nomes das espécies, uma galera reparou no número de patas, e ninguém reparou no número de olhos! Sexta que vem tem mais, gostei do retorno nos comentários
Demorei um pouco mais do que esperava para postar a resposta pois estava esperando a permissão dos autores das fotos. Espero que as imagens compensem a espera
As orquídeas são plantas sensacionais, não apenas visualmente, evolutivamente também. Muitas orquídeas são capazes de imitar cores e cheiros de fêmeas de insetos e com isso atrair o macho sedento, que ao tentar copular com a flor, transporta o pólen. Por causa da pressão seletiva as orquídeas são capazes de imitar perfeitamente o cheiro da fêmea, ou não…
Estudando orquídeas da espécie Ophrys exaltata, cientistas descobriram que havia uma grande variação na composição de sustâncias utilizadas para imitar a fêmea da abelha Colletes cunicularius. Isso levantou a questão de porque haveria a variação, se as fêmeas desta espécie de abelha costumam ter uma composição de cheiro uniforme. A culpa é dos machos. Como quase não há diferença entre as abelhas fêmeas, os machos têm preferência por odores ligeiramente diferentes, indicadores de uma maior variedade genética, que pode favorecer o sucesso da geração seguinte. O que a orquídea faz então é explorar essa “vontade de dar uma variada” dos machos, como você pode perceber pela voracidade do macho no vídeo abaixo, mais um pego no flagra levando gato por lebre. Ninguém está mais impune depois do Youtube.
fonte:








