Por Elton Luiz Valente

Se pudéssemos eleger um dos constituintes minerais dos solos que melhor os represente, este posto seria ocupado pelas argilas. As argilas são “o pó” de que nos fala o livro de Gênesis. E por falar na gênese, a morte não é castigo, o imponderável, ou coisa parecida, é apenas um acerto de contas entre a vida e a natureza.

Mas voltando ao assunto, não é possível compreender o funcionamento dos solos sem compreender o funcionamento das argilas e, é claro, de sua “irmã” biológica, ou “atriz coadjuvante” chamada matéria orgânica. É nelas que se encontra boa parte dos processos que proporcionam a manutenção do equilíbrio dinâmico dos ecossistemas.

Se o Geófagos pudesse eleger a sua “Santíssima Trindade”, as argilas seriam agraciadas com um posto nesta honraria, e vice-versa.

No meu texto anterior, eu afirmei que as argilas, em função de suas propriedades, certamente desempenharam um papel fundamental nos primórdios da vida neste planeta. Descontada a minha ignorância, eu desconheço afirmações neste sentido, pode ser que existam, mas em nenhum momento de minha carreira acadêmica, da Ciência do Solo, eu ouvi, ou encontrei, qualquer menção a este fato que a mim parece óbvio.

Antes que alguém proteste a respeito de minhas afirmações, dizendo que cometi heresias, afirmei sem provas, concluí com base em evidências ou, na melhor das hipóteses, cometi alguns exageros, etc. etc., devo lembrá-los que a Ciência sempre trabalhou com evidências, às vezes mínimas. E questões complexas frequentemente podem ser resolvidas com equações muito simples. Um exemplo? E = m.c².

Mas o fato é que em algum momento, acredito, a Ciência vai esbarrar com este assunto, e ninguém vai poder dizer que o Geófagos não estava atento, fazendo jus ao seu nome e aos seus objetivos.

Até lá!

Por Elton Luiz Valente

Os catalisadores são ‘entidades’ fantásticas. No exemplo figurativo do Dicionário Aurélio, o catalisador é definido como estimulante, dinamizador, incentivador. No sentido estrito, a catálise é, em geral, e ainda de acordo com o Dicionário, o aumento da velocidade de uma reação pela presença e atuação de uma substância que não se altera no processo. Sabemos que os seres vivos só se mantêm vivos e ativos pela atuação quase inacreditável das enzimas, principais catalisadores do universo orgânico da vida. Mas no princípio, antes do verbo, as enzimas não existiam, e a vida precisava vir à luz.

Muito já se especulou sobre isso. Para deleite dos criacionistas, a Ciência ainda não encontrou o elo perdido dessa epopéia, ainda não foi possível realizar o experimento definitivo para provar a hipótese mais aceita pela Ciência, a de que a vida surgiu do “caldo primordial”, ou da “sopa primordial”.

Essa idéia da “sopa primordial” é obra dos cientistas Oparin e Haldane, um russo, o outro britânico. Resumidamente, Oparin e Haldane especularam que as condições primitivas da terra, como a composição gasosa da atmosfera, a temperatura geral, a incidência de raios UV, entre outros fatores, promoveram reações químicas que deram origem a substâncias orgânicas, como os aminoácidos, e estes se uniram por forças eletroquímicas, daí surgiram os primeiros colóides ou “coacervados” e destes as células primitivas.

Dois cientistas norte-americanos, Urey e Miller, resolveram testar a hipótese de Oparin-Haldane. No famoso experimento, tentaram reproduzir in vitro as condições primevas da terra, colocando ali os ingredientes e as condições da sopa primitiva. Como resultados, obtiveram alguns aminoácidos, o que já é um grande feito, mas a coisa não passou daí.

É muito difícil reproduzir a sopa primitiva, até porque não sabemos exatamente a sua constituição, quais eram os seus ingredientes e em que proporção eles se davam, além das exatas condições climáticas da terra, a intensidade de bombardeios por raios cósmicos e etc.

Mas algumas coisas podem ser presumidas com certo grau de confiança. Por exemplo: o que faltou no experimento de Urey e Miller para que o processo pudesse dar pelo menos mais um passo a diante? A resposta que me parece óbvia é a presença de um catalisador. Pelo que se sabe, Urey e Miller não pensaram nisso, não colocaram lá um catalisador primevo, inorgânico, comum ao ambiente terrestre de todos os tempos.

Existem diversos catalisadores inorgânicos na natureza. Os íons, por exemplo, desempenham bem esse papel. Mas, no meu entendimento, para catalisar as reações entre substâncias orgânicas, principalmente aquelas que promoveram a gênese dos primeiros colóides que deram origem às células primitivas, é preciso um catalisador inorgânico mais poderoso. Nós da Ciência do Solo conhecemos bem estas ‘entidades’, lidamos com elas todos os dias. São as Argilas, ou Argilominerais. Se alguém aí insurgir em protesto, dizendo que eu estou querendo elevar míseras argilas à categoria de Deus, ‘o promotor da vida’, eu digo que não é isso, mas que assim seja! Amém!

Os Argilominerais, por assim dizer, não são exatamente catalisadores no sentido estrito, pois o catalisador propriamente dito não se altera no processo, e as argilas, dependendo das condições do meio, e em geral, sofrem alterações. Mas o que importa é que elas desempenham muito bem esse papel, tanto nos solos quanto em meios aquosos naturais, como rios, lagos e oceanos. Ambientes aquáticos sem argila, ou com pouca argila, são ecossistemas pobres em fauna e flora, como o Rio Negro na Amazônia e a maioria dos rios da Serra do Cipó, onde desenvolvi minhas pesquisas de doutorado.

Mas o fato é que as argilas certamente desempenharam um papel fundamental na sopa primordial da Terra Primitiva, no pré-vida. Urey e Miller não pensaram nisso.

Consta que há um prêmio de mais de um milhão de dólares para quem der um passo à frente no experimento de Urey e Miller. Fora este fato irrisório, fica aí minha sugestão, e o convite de um pesquisador sem recursos financeiros, a quem se interessar em uma parceria para desenvolver um experimento dessa natureza, dessa magnitude e importância.

 

No tempo em que o forró era um gênero musical realmente representativo da cultura popular e não uma coleção vulgar de obscenidades, era ainda possível ouvir pérolas de verdade da boca de um Luiz Gonzaga, bonitamente declamando que “uma esmola para um homem que é são ou lhe mata de vergonha ou vicia o cidadão”.

Em um breve artigo publicado na edição de hoje da Nature, o agrônomo e cientista do solo Pedro Sanchez, pesquisador sênior do Earth Institute da Columbia University defende ser muito mais barato aos países desenvolvidos financiarem a assistência técnica e a adoção de tecnologias agrícolas mais avançadas por parte de agricultores pobres africanos do que enviar comida para os mesmos. Trocando em miúdos, é mais barato ensinar a pescar do que dar o peixe. Segundo Sanchez, enquanto se gasta US$812,00 para comprar, embarcar e distribuir uma tonelada de milho africano em África, doar aos fazendeiros africanos os fertilizantes, as sementes e prover a assistência técnica para que produzissem sua própria tonelada de milho custaria aos cofres americanos US$135,00, cerca de seis vezes menos! A adoção adequada de tecnologia agrícola moderna, acompanhada de assistência técnica, traria ainda aos agricultores e países africanos assolados pela fome a tão desejada auto-suficiência alimentar, livrando-as, pelo menos parcialmente, da incômoda dependência de outros países. Sanchez apresenta dados de locais onde se disponibilizou sementes melhoradas, fertilizandes e apoio técnico em que a produtividade do milho pulou de 1,7 tonelada por hectare para 4,1 toneladas por hectare, mais que o dobro - exatamente o que comentamos neste outro post. Mas os argumentos econômicos por si talvez não sejam suficientes para convencer os americanos de que a opção mais lógica e econômica seja a melhor: os já bastante subsidiados agricultores americanos perderiam um certamente lucrativo mercado.

Mas nem todos os americanos pensam igualmente. Fale-se o que se quiser de Bill Gates, não há como não o admirar. A Fundação Bill e Melinda Gates recentemente contactou a Embrapa buscando “alternativas para contribuir com o aumento da produtividade agrícola em até 11 países da África subsaariana“. A fundaçao deseja até o final do ano estar desenvolvendo atividades na África em parceria com a Embrapa. O objetivo maior é a transferência de tecnologia agrícola brasileira e capacitação de agricultores africanos. Nada mais lógico que o Brasil participe de uma tal ação: os solos da África tropical são em grande parte semelhantes aos solos brasileiros predominantes, os Latossolos, internacionalmente conhecidos como Oxisols. O conhecimento gerado no Brasil pela Embrapa e universidades públicas de aproveitamento agrícola dos solos do cerrado pode ser tranquilamente transplantado para regiões do continente africano onde seja cabível, o que representa uma grande parcela da África ao sul do Saara. É necessário ensinar a plantar.

Em notícia originalmente publicada na Folha de São Paulo e transcrita pelo Jornal da Ciência, o Ministro da Agricultura, sr. Reinhold Stephanes, defende mudanças no Código Florestal afirmando que “se as áreas prioritárias à conservação da biodiversidade fossem implementadas hoje, não existiriam hectares disponíveis para [novas] atividades agrícolas, tampouco para o desenvolvimento urbano e econômico (…) Faltaria área para o plantio de alimentos e para o crescimento da população”. Pergunto-me, antes de tudo, se no lugar de nos preocuparmos com mais espaço para o crescimento populacional, tendo em vista a situação atual do mundo, não deveríamos nos preocupar antes em deter o crescimento da população humana.

O ganhador do Prêmio Nobel da Paz, Norman Borlaug, talvez o único agrônomo internacionalmente conhecido e considerado por alguns como o maior benfeitor vivo da humanidade, já defende que se utilizem práticas agrícolas avançadas para se aumentar a produtividade agrícola para que não haja a necessidade de se abrir novas áreas. Existe uma diferença entre produção e produtividade agrícola. A primeira é o total produzido e contabilizado, por exemplo, o Brasil produz x toneladas de soja. Produtividade é a capacidade de produção de determinada área, geralmente um hectare, que corresponde a dez mil metros quadrados. Um determinado agricultor, utilizando variáveis não adaptadas à região, sem repor os nutrientes retirados do solo pela cultura, com um ineficiente controle de pragas e doenças, produzia uma tonelada de milho por hectare, digamos. Ao adotar as práticas agrícolas recomendadas, sua produtividade aumentou para seis toneladas por hectare. A produção foi multiplicada por seis sem que se tenha acrescentado um metro quadrado sequer de plantio por que o acréscimo foi de produtividade. O aumento da produção agrícola de um país pode depender ou do aumento da área plantada ou da elevação da produtividade pela adoção de melhores tecnologias agrícolas. Assim, o aumento na produtividade não está diretamente associado ao aumento na área sob agricultura. Nem o aumento da área plantada siginifica que a produção agrícola total será aumentada. Aumento de produtividade é aumento de eficiência. A abertura de novas áreas agrícolas é simplesmente uma solução mais fácil de se aumentar a produção sem que obrigatoriamente se implemente ou se adote mais tecnologia.

Dizer que o aumento de áreas naturais protegidas comprometem a produção de alimentos de um país é um argumento falacioso, talvez tendencioso. Como em outros aspectos da moderna sociedade, estamos invertendo os valores. Frente à tragédia ambiental que se aproxima, será mesmo um prejuízo que mais áreas protegidas atrapalhem a expansão urbana e agrícola? Questionemos antes o crescimento populacional irresponsável e a dificuldade em se aplicar mais tecnologia, e mais eficientemente, na agricultura brasileira.

Conforme matéria publicada no Jornal da Ciência, versão on-line, o presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, irá injetar cerca de US$ 100 bilhões em atividades de pesquisa, nas diferentes áreas do conhecimento. Essa verba deverá ser gasta nos próximos dois anos, principalmente em saúde pública.

Como é uma constante no Brasil copiar tudo que vem do Tio Sam, esta é uma iniciativa  que deveria ser copiada descaradamente!

Qualquer brasileiro, seja ele de qualquer classe social, etnia, se torce pelo Ronaldo fenômeno ou não, sabe quais são os setores que mais sofrem quando o governo lança algum pacote econômico, é a Saúde e a Educação. E isso não foi diferente agora! Recentemente, estava para ser reduzido do orçamento do Minitério de Ciências e Tecnologia aproximadamente R$ 30 milhões. Obviamente, alguém poderá questionar o que são 30 milhões de reais frente a 100 bilhões de dólares? Numericamente pode parecer irrisório, mas essa redução orçamentária se concretizada pode afetar: 1. a implementação dos Institutos Nacionais de Ciência e Tecnologia aprovados pelo CNPq, muito importantes pois irão ocupar posições estratégicas no Sistema Nacional de Ciência, Tecnologia e Inovação; 2. realização de concursos público nas universidades para absorção dos recursos humanos formados para divulgar, ensinar e dar prosseguimento às pesquisas desenvolvidas; 3. financiamento de bolsas de estudo nacionais e, principalmente, internacionais; 4. lançamento de editais de apoio à pesquisa e extensão; dentre outras coisas.

Não tenho dúvida que é mais facil acreditar que Jonas foi engolido por uma baleia, do que na possibilidade de ver algum governante brasileiro alocar tanto recurso em Ciência e Tecnologia, porém já seria de bom tamanho se não tocasse no que já é pouco. Entretanto, sempre que possível gosto de frisar que embora seja pouco nós temos pesquisas de ponta sendo desenvolvidas aqui, as quais se equiparam as realizadas “overseas”. Nosso material humano é de excelente qualidade, o que nos puxa para tráz são nossas políticas públicas!

Em geral a agricultura, principalmente alguns setores da horticultura, é criticada pelo uso teoricamente indiscriminado de inseticidas. Não há como negar que muitos agricultores utilizam quantidades exageradas, por vezes sem respeitar prazos de carência. Há no entanto outros setores da sociedade utilizando inseticidas de forma intensa, potencialmente muito perigosa à população e aos aplicadores, de forma ineficiente mas ainda assim pouco questionada. O combate ao inseto transmissor da dengue é um caso óbvio. Uma forma alternativa, eficaz e infinitamente menos perigosa de se combater insetos, tanto na agricultura quanto em outros casos, é a utilização de controle biológico. Basicamente, o controle biológico é a utilização de inimigos naturais do inseto indesejado, em geral outros insetos, predadores, e microrganismos causadores de doenças nas pragas. Mosquitos semelhantes aos da dengue são eficientemente eliminados, por exemplo, utilizando-se a bactéria Bacillus thuringiensis, o famoso Bt, o qual infecta a população de insetos mas não afeta outros organismos. No Brasil, no entanto, utiliza-se ainda o controle químico com inseticidas convencionais, perigoso e, pelo que se vê, ineficiente. A utilização constante de um mesmo grupo de inseticidas inevitavelmente leva à seleção de populações mais resistentes de insetos. Pergunto-me, os inseticidas utilizados pelos tais fumaceiros ou fumacês serão realmente eficientes? Por que o governo brasileiro não utiliza controle biológico, tão eficientemente utilizado em países como Austrália e os próprios EUA e muitíssimo menos perigoso que inseticidas químicos, já que o organismo utilizado só é danoso ao inseto alvo? Será possível que interesses escusos de empresas produtoras de inseticidas sobreponham-se a vidas humanas? Que me respondam os bem informados.

O leitor Jorge Oliveira deixou uma mesagem de parabéns pelo nascimeto da minha filha e, nos comentários, nos deixou de “presente”, um texto que vem ao encontro dos princípios do Geófagos. Reconhecendo a importância do texto e sabendo que o campo de comentários desperta pouca atenção, resolvi postá-lo na integra para que mais pessoas possam ter conhecimento  dos ‘Questionamentos e Diretrizes Oriundos do I Fórum Mundial Ciência e Democracia’,  realizado em Belém, PA, entre os dias 26/01 a 01/02 de 2009.

Jorge, agradecemos o presente!

QUESTIONAMENTOS E DIRETRIZES ORIUNDOS DO
I FÓRUM MUNDIAL CIÊNCIA E DEMOCRACIA - BELÉM 26/1-1/2/2009

Preâmbulo
O presente texto é o resultado inicial do I Fórum Mundial Ciência e Democracia realizado em Belém de 26 de janeiro a 1º de fevereiro de 2009. Foi elaborado e subscrito por participantes de 18 países em 4 continentes. Ele dá início a um processo amplo e inclusivo tendo por objetivo construir uma rede internacional de movimentos, organizações e indivíduos que compartilham questionamentos a respeito da ciência, da tecnologia, e de outras formas de conhecimento, à luz dos interesses sociais e democráticos.

Questionamentos e diretrizes

1. Todo conhecimento, inclusive a ciência, é herança comum da humanidade. Expandir o conhecimento tem sido uma das aspirações mais fundamentais da humanidade ao longo da história.
2. O conhecimento e os métodos de sua produção podem resultar tanto na emancipação e no bem de todos, como em dominação e opressão.
3. Apoiamos os regimes que garantem e promovem os bens públicos e comuns e outros sistemas de recompensa da inovação que não envolvem a criação de monopólios de conhecimento e geração de lucros.
4. A ciência e a tecnologia estão implicadas nas crises que assolam o mundo nos dias de hoje - a crise econômica, a ecológica, a energética e as relacionadas à segurança alimentar, à democracia, à guerra e ao militarismo. É necessário aprofundar nossa compreensão a respeito de como a ciência e a tecnologia são parte tanto das causas quanto das possibilidades de superação dessas crises.
5. É necessário reconhecer que os valores das comunidades científicas são moldados por processos históricos e culturais. A autonomia e a responsabilidade social dos pesquisadores, bem como o caráter público e universal da ciência, precisam ser promovidos, porém levando em conta as diversidades sociais e culturais do tempo presente.
6. Reconhecemos que em diferentes países, e em diversos níveis, incluindo o das instituições científicas e o das comunidades locais, existem diferentes regimes de produção do conhecimento. Os contextos históricos influenciam os desenvolvimentos políticos, culturais, educacionais e científicos na sociedade, dando origem à diversidade na produção do conhecimento tanto científico quanto tradicional. É necessário um novo tipo de sistema de eco-conhecimento adequado a diferentes regimes de propriedade intelectual. Nesse contexto apoiamos iniciativas como a do Acesso Aberto para as publicações científicas.
7. Devem ser promovidas iniciativas visando o envolvimento informado de cidadãos nos processos de tomada de decisões relativas às políticas científicas e tecnológicas em todos os níveis, internacional, nacional e local.
8. É necessário mudar a situação atual, em que os interesses do mercado, o lucro das empresas, a cultura consumista e os usos militares são os principais fatores determinantes dos rumos da pesquisa científica, tecnológica, e da inovação.
9. Adotamos a preservação da vida humana como um valor primordial, e assim conclamamos as comunidades científicas e tecnológicas a não se envolverem em pesquisas com fins militares.
10. É imprescindível promover a participação social e o empoderamento da população a fim de exercer o controle democrático sobre as políticas científicas e tecnológicas.
11. É necessário desenvolver sistemas de pesquisa colaborativos e participativos, de baixo para cima.
12. Temos por objetivo a construção de uma rede internacional que ressalte a importância da ciência e da tecnologia, mas questionando as tendências perigosas que elas manifestam nos dias de hoje em relação à democracia, ao meio ambiente, e à dinâmica da globalização capitalista.
13. Esta rede aberta deve incluir as comunidades da ciência e da tecnologia, e diversos movimentos sociais. Nosso objetivo é estabelecer um diálogo democrático e uma relação de colaboração entre organizações científicas e de cidadãos, e movimentos sociais.
14. A rede visa fortalecer os movimentos que questionam a maneira como a ciência e a tecnologia é dominada por interesses empresariais, privados, militares, políticos e estatais, que afetam os valores éticos e a produção do conhecimento científico e tecnológico.

O presente texto é dirigido a

· Cientistas, tecnólogos, acadêmicos, educadores e especialistas, e suas instituições no mundo todo;
· Povos indígenas, associações de agricultores, sindicatos e outros movimentos sociais e políticos, ONGs, organizações e instituições no campo da ciência e da tecnologia;
· Todos os participantes dos fóruns globais, regionais e locais;
· Autoridades internacionais, regionais, nacionais e locais em todo o mundo.

A ciência, a pesquisa, as tecnologias e inovações estão ligadas a questões amplas e importantes referentes ao futuro de nossas sociedades e do meio ambiente. Conclamamos todos, portanto, a estabelecer conexões concretas entre as respectivas agendas e prioridades políticas e o conteúdo deste documento.
Convidamos todas as organizações científicas e sociais, participantes dos Fóruns Sociais, e cidadãos no mundo todo a ampliar e fortalecer este movimento a partir de agora, de acordo com a seguinte agenda:
Janeiro de 2010: Fóruns regionais Ciência e Democracia
Janeiro de 2011: II Fórum Mundial Ciência e Democracia
Conclamamos todas as pessoas, e todas as organizações, movimentos e redes, a organizar debates públicos a fim de conscientizar a maior parte de nossas respectivas sociedades e comunidades a respeito dessas questões.

Belém do Pará, 1º de fevereiro de 2009

Não é porque me encontro, finalmente, numa posição profissionalmente confortável que deixarei de comentar indignado as distorções na contratação de profissionais com pós-graduação no país, principalmente nas universidades públicas. Nos concursos para professor universitário atualmente se confere uma relevância grande ao currículo de publicações de um doutor ou mestre. Publicações são interessantes, não discordo, e podem ser uma medida razoável da capacidade do profissional em divulgar as pesquisas que fez ou faz. Mas, parafraseando o rei de França, onde está o trecho no testamento de Adão que obriga todo professor universitário a ser pesquisador? De que vale um excelente pesquisador com um espesso currículo que dê aulas execráveis? Em universidades com programas de pós-graduação sólidos e com estabelecida história de pesquisa, pode ainda valer muito, mas em universidades em que sequer há tais programas, em que o foco é a formação de profissionais com perfil mais técnico que acadêmico, não seria muito mais interessante profissionais com excelentes abilidades técnicas e didáticas mesmo que sem um currículo de tar torsicolor? O grande problema é a macaqueação, a ânsia ignorante de imitar as soluções americanas para problemas que eles têm e nós não temos. Isso mesmo. As universidades americanas de pesquisa costumam contratar (sem concurso) pesquisadores de comprovada competência. Comprovada pelas publicações relevantes em relevantes periódicos. Mas eles têm a solução, que não adotamos, para os profissionais com pós-graduação que não queiram ser pesquisadores: universidades voltadas prioritariamente ao ensino. Eça de Queirós, no século XIX, já se afligia pela insistência de seu conterrâneos em imitar desastradamente os estrangeiros, em geral de forma grotesca. Que falta faz aos fazedores de políticas (e a todos nós) ler os clássicos. Deixaríamos de ser tão estúpidos.

Olá a todos,
Gostaria, com a permissão de meus amigos geofágicos, de usar esse espaço para compartilhar a grande alegria que impera na minha casa e que se estende para toda minha família e amigos.
Na última quarta-feira (25/02/2009) nasceu a minha filha, Marina Vitória. Hoje, depois de 7 dias de vida ela está ótima, ainda não trocou a noite pelo dia e parece uma máquina de sucção de tanto que mama. Muitos de vocês leitores têm conhecimento dos fatos ocorridos comigo e minha esposa quando perdemos dois filhos. É uma pancada muito forte, principalmente para as mulheres que realizam todo o trabalho árduo desde a gestação até o parto.
Antes mesmo do ato da concepção da Marina, havia grande dúvida quanto a uma nova tentativa e se deviamos ou não fazer algum tipo de tratamento, se é que existe, para garantir uma próxima gestação mais segura. Contudo, sendo fiel aos ensinamentos do Tio Charles (Charles Darwin; pseudônimo já bem conhecido aqui no Geófagos), tinha certeza que tudo foi uma questão de probabilidade (no primeiro caso) e seleção natural (no segundo caso) e que um dia tudo daria certo, como deu agora. E para coroar isso, nada melhor que o segundo nome, Vitória, que me veio à mente após o nosso amigo Ítalo se equivocar e chamar a Marina por esse nome. Talvez tenha cido um dos equívocos mais acertados do nosso amigo, que me ajudou muito nos momentos difíceis.
Obrigado a todos aqueles que torceram por nós e grande abraço

Juscimar

Um estudo realizado pela equipe do professor Manuel Eduardo Ferreira, da Universidade Federal de Goiás, aponta para uma estimativa de crescimento da área desmatada do cerrado brasileiro de cerca de 14% até 2050. A preocupação com outros ecossistemas brasileiros, além da tão citada Amazônia, já vem sendo por mim levantada aqui, no Geófagos, outras vezes. Isso pode ser visto aqui e aqui.

Reportagem do Estado de São Paulo mostrou dados preocupantes levantados pela equipe do referido professor. Por meio de análises de imagens de satélite eles puderam concluir que, mantido o mesmo ritmo atual de desmatamento, a área suprimida do cerrado brasileiro será de cerca de 40 mil km2 por década, elevando a área devastada de 800 mil km2 para 960 mil km2. A área preservada seria de cerca de 1 milhão de km2. O principal causador de tamanha elevação é o avanço da fronteira agrícola na região. Até 2020 devem ser incorporados cerca de 60 mil km2 à essa atividade. Avanço naqueles que, há cerca de quatro décadas atrás, eram considerados solos inaptos ao cultivo. Estima-se que a área desmatada chegará à metade do tamanho do estado de Goiás ou equivalente a dez vezes aquele referente ao Distrito Federal. A expansão da fronteira agrícola se dá em direção, principalmente, do cerrado nordestino (Piauí, Bahia e Maranhão).

O Cerrado é o segundo maior ecossistema brasileiro, ficando atrás somente da Amazônia. Sua riqueza, com grande presença de espécies endêmicas, é reconhecida como de grande importância há tempos. Basta lembrar que esse ecossistema, juntamente com a Mata Atlântica, constituem os dois Hotspots de biodiversidade brasileiros, propostos pelo ecólogo inglês Norman Myers para identificar áreas de conservação e preservação prioritárias, desde de 1988. Além disso, no cerrado estão importantes nascentes de bacias hidrográficas importantes como a Amazônica, do São Francisco e do Prata.

Enfim, que dê-se a devida importância também a outros ecossistemas brasileiros.

Carlos Pacheco

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