
E agora, posso avançar um pouco mais: Habermas
“Diferentemente das ciências filosóficas de tipo antigo, as modernas ciências experimentais desenvolvem-se desde a era de Galileu, num marco metodológico de referência que reflete o ponto de vista transcendental da possível disposição técnica. As ciências modernas geram por isso um saber que, pela sua forma (não pela sua intenção subjetiva), é um saber tecnicamente utilizável, embora as oportunidades de aplicação, em geral, só tenham surgido posteriormente. Até ao fim do século XIX, não existiu uma interdependência de ciências e técnica.” (Técnica e Ciência como “Ideologia”- Jürgen Habermas - Edições 70 - 2006 - pág 66-67)
A interdependência entre ciência e técnica é a ciência do fazer. A instrumentação da natureza no intuito da dominação. A medicina se utiliza de uma parte dessa ciência que podemos chamar ciência médica e que vem a nós carregada dessa ideologia.
Vêm daí parte das críticas contemporâneas.
A Dialética do Esclarecimento. T. Adorno e M. Horkheimer. Jorge Zahar. 1985, pág 13.
“Não alimentamos dúvida nenhuma de que a liberdade na sociedade é inseparável do pensamento esclarecido. Contudo, acreditamos ter reconhecido com a mesma clareza que o próprio conceito desse pensamento, tanto quanto as formas históricas concretas, as instituições da sociedade com as quais está entrelaçado, contém o germe para a regressão que hoje tem lugar por toda parte.
Se o Esclarecimento não acolhe dentro de si a reflexão sobre esse elemento regressivo, ele está selando seu próprio destino. Abandonando a seus inimigos a reflexão sobre o elemento destrutivo do progresso, o pensamento cegamente pragmatizado perde seu caráter superador e, por isso, também sua relação com a verdade.”
Refletir sobre o elemento destrutivo do progresso não significa primitivizar o presente. Pelo contrário, a reflexão aqui tem como objetivo primordial a libertação do meu pensamento. (Ou pelo menos, entender os efeitos colaterais de minhas formas de pensar.)
Acorrentado que estou a meu tempo, refletir aqui será desagrilhoar-se…

Primeiro, preciso entender como o Esclarecimento (Iluminismo, Aufklarüng) opôs a razão ao mito. O combate ao mito como fonte de irracionalidade fundamenta a oposição entre o esclarecimento e a mitologia. Kant é o grande mestre dessa transformação. A sufocação do mito permite entender muitas coisas: de Freud a Edir Macedo. Preciso reconhecer ainda, que a primazia do eu burguês reduz a natureza a uma simples e indiferenciada resistência ao poder abstrato do sujeito. O super-sujeito esclarecido. Caso contrário, não entenderei o surgimento da tecno-ciência e como ela - sempre com décadas de atraso em relação às ciências ditas naturais (Física, Química, etc) - dizia, como ela mesma, tecno-ciência, vem moldando o pensamento médico contemporâneo.


