Não, não se trata de uma repetição do cômico “hoax” do monóxido de di-hidrogênio, mas de mais uma confirmação (como se fosse necessário…) do velho dito de HL Mencken: é impossível perder dinheiro subestimando a inteligência do próximo.
Detalhes nesta reportagem, que mostra como um grupo de praticantes de ioga quase foi parar no cemitério após consumirem, cada um, 40 litros de água. O Brasil perdeu a glória de amealhar uma série de prêmios Darwin, graças à presteza dos profissionais de saúde, mas sempre é bom chamar atenção para os riscos da intoxicação por água.
Na reportagem, algumas pessoas falam em processar o guru responsável, por curandeirismo e prática ilegal da medicina. Mas, como James Randi já notou em seu clássico The Faith Healers, geralmente o apelo à liberdade de religião e crença opera como um escudo seguro contra esse tipo de acusação.
Não sei se é trauma da minha formação acadêmica — em Comunicação Social, no início dos anos 90 — mas hoje me dia toda vez que ouço a palavra “paradigma”, tenho uma reação semelhante à atribuída a Hermann Göring quando o marechal nazista ouvia “cultura”. Com a desvantagem de que não ando armado.
Aquela foi uma época onde o legal era grokar (com o perdão do nerdismo) coisas como “holismo“, “teoria geral dos sistemas” e o trabalho de Thomas Kuhn sobre revoluções científicas, tudo isso nas versões devidamente infladas e distorcidas de gente como Fritjof Kapra e piores e visto, claro, pela lente estreita do marxismo ingênuo da academia, onde ter senso crítico era, basicamente, não criticar o professor mas falar mal de todo o resto.
Eu me lembro de ter achado isso tudo muito estranho — certa vez, durante um rant de uma professora marxista-freudiana (devia ser astróloga também, acho) sobre como a ciência é um discurso de reafirmação do patriarcado opressor burguês, perguntei-me qual seria o subtexto opressor, machista e pequeno-burguês da fómula de Bhaskara. Talvez o “sobre 2a” insinue uma menàge onde duas mulheres têm papel subalterno?
Enfim… Naquela época, a pior ofensa que se podia fazer a alguém — pior que “feio”, “bobo” ou “malufista” — era “cartesiano”.
Juro que demorei a entender direito o que estava dando a Descartes essa má reputação. Digo, ninguém lá estava falando mal dos argumentos sofríveis que ele ofereceu para demonstrar a existência de deus; nem do dualismo radical mente-corpo que ele defendeu e que desencaminhou a psicologia por séculos; nem mesmo de sua teoria dos vórtices, uma tentativa mal-sucedida de explicar a força da gravidade.
Será que o pessoal de Humanas era tão ruim em matemática que detestava a Geometria Analítica?
Não: o problema com Descartes era o Método. O filósofo francês havia proposto um método para resolver problemas complicados que, em resumo, era o seguinte: divida-o em problemas mais simples; resolva cada problema simples separadamente; faça uma revisão para ver se não deixou escapar nada; junte as soluções simples.
A idéia anticartesiana, nesse sentido, era a de que campos como a ecologia, a fisiologia e a administração de empresas (ou países) vinham demonstrando que existem problemas que não podem ser subdivididos dessa forma. Que era preciso haver uma abordagem totalizante — “sistemática” ou “holística”.
Essa crítica até que faz sentido mas, como tudo que desperta entusiasmo, pode ser levada longe demais: porque, mesmo em abordagens holísticas, não há como escapar, de vez, do método cartesiano: a própria definição do que é um problema representa um recorte da realidade. Você está dividindo o universo, que é El Gran Problemón, em problemas menores e resolvendo-os, um de cada vez: uma coisa é a estrutura interna do Sol; outra, os padrões de migração dos pinguins da Antártida. E esses são dois problemas obviamente ligados, já que os pinguins reagem ao clima.
Outro problema do anticartesianismo radical é que ele destrói qualquer chance de inteligibilidade e, até, de ação: se tudo está ligado a tudo e tudo é importante para tudo, o único jeito de fazer algo é entendendo tudo, e como não dá pra entender tudo, o melhor é não fazer nada. O resultado é um vago misticismo e a crença de que qualquer idéia, por mais cretina que seja, deve ser ”válida”.
A solução, claro, não é abandonar o método cartesiano, mas aplicá-lo de forma prudente e consciente. Problemas precisam ser divididos em partes. Mas quem os divide deve precaver-se para não fazer o corte errado — e para não se esquecer do passo crucial do Método: uma revisão, para ter certeza de que não ficou nada para trás.
Nos comentários sobre par-ou-ímpar, surgiu a sugestão de uma postagem sobre joquempô (ou jan-ken-po, ou roxambô, etc) o jogo onde um gesto representa papel, outro pedra e outro tesoura, e com as seguintes regras:
Papel derrota pedra.
Pedra derrota tesoura.
Tesoura derrota papel.
Eleitoralmente, o jogo é interessante porque representa o modelo de um ciclo de Condorcet - uma situação onde é impossível definir um ganhador absoluto entre os candidatos apresentados. Perceba que, no “pleito jpoquempô”, nenhum candidato é realmente favorito: qualquer um pode ganhar.
Para entender isso melhor, imagine que as regras do joquempô são os resultados possíveis do segundo turno de uma eleição. O povo está disposto a eleger Papel, se o oponente for Pedra; Pedra, se o oponente for Tesoura; Tesoura, se for Papel. Ninguém pode se declarar vencedor inconteste: tudo depende que como os pares serão formados.
Ciclos de Condorcet devem o nome ao fato de serem um “bug” no sistema eleitoral proposto pelo Marquês de Condorcet, e que preconizava que o ganhador legítimo de uma eleição deveria ser capaz de bater cada um de seus adversários em uma série de “segundos turnos” simulados. A existência de ciclos estraga um pouco a idéia.
Muita gente achou o sistema de Condorcet bom demais para ser jogado fora só por causa de um bugzinho desses, e ao longo dos tempos surgiram várias propostas de “tie-break” de quebrar um ciclo – para mais detalhes, visite o Condorcet Internet Voting Service.
Matematicamente, joquempô é interessante por ser intransitivo.
Explicando: a propriedade de ser “maior que” é transitiva nos números naturais. Isso significa que se eu sei que 10 e maior que 8 e que 8 é maior que 5, posso deduzir, tranqüilamente, que 10 é maior que 5. Por formar um ciclo, o joquempô não tem transitividade.
Eu geralmente nã blogo aos domingos, então resolvi usar o espçao , geralmente vago, para sair da linha comum deste blog e fazer algumas recomendações literárias… No caso, de ficção científica brasileira.
Muitas vezes, a relação do gênero com seu público em potencial me lembra um pouco aquelas velhas comédias de pastelão em que dois personagens (Ollie e Stan, digamos) tentam dessperadamete se encontrar… Ms sempre abrem a porta errada, ou estão na mesma sala mas e costas um para o outro e não percebem, ou se encontram no escuro e acabam brigando porque não se reconhecem.
Tudo muito engraçado, desde que você não seja Stan ou Ollie, claro.
Então, fazendo a minha parte para ajudar no encontro, aqui vão alguns links para publicações virtuais gratuitas que talvez sejam úteis:
http://www.verbeat.com.br/terraincognita/
http://www.black-rocket.blogspot.com/
http://www.clfc.com.br/somnium/101.pdf
Boas leituras!
Eis por que jamais serei um matemático: foi so depois de fazer corpo mole no trabalho para desenhar uma tabela com todos os 36 resultados possíveis de um jogo de par ou impar onde cada jogador usa só uma mão ( detalhes nos comentarios do post anterior) que me ocorreu uma solução infinitamente mais simples.
Bolas, a soma de dois números pares ou de dois ímpares sempre e par. A soma de um par com um ímpar e o único modo de produzir outro ímpar.
Daí, generalizando: p+p=p; p+i=i; i+i=p.
Então, se você põe par, a chance do resultado ser par e 50% - se o outro cara puser par também - e 50% de ser ímpar, se ele puser ímpar. A situação inversa e perfeitamente simétrica!
Talvez os praticantes do par ou ímpar tenham uma compreensao intuitiva disso, e portanto quase sempre só usem 1 ou 2. Moral: não importa o número usado, só se ele e par ou ímpar!
Pensar que vivi todos esses anos sem pensar nisso…
A forma mais sincera de admiração é o plágio, diz o provérbio. Então, para mostrar minha admiração pelos enigmas de sexta-feira do co-lablogatorista Rainha Vermelha, resolvi estabelecer o “Paradoxo da Sexta-Feira”. Se eu realmente conseguir levar isso adiante, toda sexta vou apresentar aqui um paradoxo falsídico e deixar a solução em aberto para os leitores.
Ah, sim: na definição do filósofo W.V. Quine (que conquistou minha imorredoura admiração como um dos signatários de um manifesto denunciando Jacques Derrida por picaretagem), um paradoxo poder ser “verídico”, isto é, revelar uma contradição real entre os conceitos empregados, ou “falsídico”, algo que só parece paradoxal por conta de uma pegadinha.
Vamos começar com um pequeno clássicodo falsidismo, o Paradoxo do Garçom.
Três amigos vão a um bar, tomam umas cervejas e pedem a conta, que totaliza R$ 11 (a cerveja era vagabunda). Cada um põe uma nota de R$ 5 na mesa. O garçom pega os R$ 15 e leva para o caixa, que faz o troco, R$ 4. O garçom volta com o troco para a mesa e os três amigos, bêbados demais para discutir a divisão de 4 por 3, pegam um real cada um e deixam R$ 1 na mesa, como uma gorjeta extra para o garçom, que era muito simpático.
Agora: cada amigo deu R$ 5 e recebeu R$ 1 de troco, para uma contribuição líquida de R$ 4, num total, da mesa, de R$ 12. Mais o R$ 1 do garçom, isso dá R$ 13. Onde foram parar os outros R$ 2?
Cartas para a redação…
No terço final do século passado, quando fiz o primário (hoje é o quê, primeira série do ensino fundamental? ah, a terminologia…) a gente aprendia que os números cardinais são 1,2,3… e os ordinais são 1º, 2º, 3º… Nas provas, caíma coisas assim: “qual o ordinal de 70?” resposta: “septuagésimo”.
Claro, a escola regular dedica-se mais à amplitude que à profundidade, e é bom que seja assim, e foi só muito depois que encontrei a diferença conceitual entre os cardinais e os ordinais. Basicamente, os números cardinais representam conjuntos (uma coisa, duas coisas, três coisas…) e os ordinais, progressão (isso vem depois daquilo que vem depois…).
Parece uma distinção besta, e o simples fato de o ser humano ser capaz de saltar de um conceito para o outro sem esforço — do “2″ de “duas maçãs” para o “2″ de “Felipe Massa é o número 2 do campeonato” — é uma prova do poder de abstração da mente humana. Porque, veja, quando se tenta passar logicamente, conscientemente e explicitamente de um conceito para o outro, o caminho é um tanto quanto pedregoso.
Afinal, o que justifica a idéia de que “três maçãs” vem depois de “duas maçãs”? O que depois significa nesse contexto? Qantidades em conjuntos dependem a passagem do tempo?
O fato é que tanto o conceito de número como expressão de quantidade quanto o conceito de número como expressão de ordem são necessários para a aritmética começar. E é curioso que vários povos da Antigüidade tenham privilegiado um aspecto dos números em detrimento do outro.
Os numerais romanos, por exemplo, são essencialmente quantitativos: I, II, III…: um palito, dois palitos, três palitos… Já os gregos e os hebreus preferiam a expressão ordinal: eles usavam as letras do alfabeto, em ordem, para simboliazr os números: a=1, b=2, c=3…
O fato de nenhuma dessas civilizações ter desenvolvido uma aritmética sofisticada mostra que uma distinção tão aguda entre ambos os aspectos não faz bem a ninguém.
Finalizando: Georg Cantor, ao propor os números transfinitos, propôs tanto os cardinais — alephs — quanto os ordinais — omegas.
Correndo o risco de denunciar minha idade provecta, confesso que sinto uma certa nostalgia pelo Van Halen, tanto nas na formações com David Lee Roth e Sammy Hagar. Qual não foi, portanto, minha alegria — e surpresa — ao me dar conta de que as letras do grupo levantam importantes questões filosóficas.
Já parou de rir? Obrigado. Estou falando sério: importantes questões filosóficas.
Por exemplo, o profundo refrão de Why Can’t This be Love, que diz: It’s got what it takes/So tell me why can’t this be love? (”Isto tem tudo o que é necessário/Então, diga-me, por que não poderia ser amor?”).
Trata-se de uma questão fundamental da ontologia, ou o estudo do ser, da essêcia das coisas: como é possível que uma coisa que preenche todos os requisitos da definição de “X” deixe de ser “X”?
A resposta óbvia é que, bom, oras, não é possível. Se “ser X” é equivalente a “ter todas as propriedades de X”, então if it got wha it takes, it’s love. Esta é, aliás, a definição de “identidade” dada pela Lei de Leibnitz: A e B são iguais se A tiver as mesmas propriedades que B, e vice-versa.
Mas isso gera alguns problemas. Imagine que eu estou segurando dois quadrados de papel, exatamente do mesmo tamanho, peso, feitos com o mesmo tipo de papel, exatamente da mesma cor. Eles são iguais? Segundo a definição de Leibnitz, não, porque um deles está na minha mão direita, e o outro, na esquerda: Essa propriedade, localização, é diferente. É por essas e outras que a geometria nunca fala em figuras “iguais”, e sim em figuras “congruentes”.
O caldo fica ainda mais espesso quando levamos a metafísica em consideração. Pense em duas hóstias, produzidas por ma mesma máquina, com a mesma farinha, mas uma delas consagrada e a outra, não: ambas têm todas as propriedades físicas, químicas e de aparência em comum. Mas, para um católico, uma delas é um biscoitinho e a outra, um naco da carne de Jesus.
Mais difícil que saber se uma coisa tem “o que é necessário” é descobrir, afinal, o que é necessário.
Uma questão que muitos amigos religiosos me fazem é como impedir as pessoas de sair por aí cometendo fraudes e assassinatos, se elas se convencerem de que não são “nada além” do resultado de milênios de evolução por seleção natural — evolução essa que, por sua vez, não seria “nada além” do resultado de bilhões de anos de colisões aleatórias entre partículas no espaço.
Minha resposta geralmente é um tanto quanto complexa, envolvendo a idéia de que, primeiro, esses dois “nada além” não são tão “nada além” assim; segundo, que a ligação entre materialismo e amoralidade é um non sequitur, já que tanto a sociabilidade quanto a afetividade e o senso de certo e errado podem ser vistos como propriedades emergentes produzidas pela evolução; e mais um monte de outras ponderações do gênero.
Mas notícias assim me fazem pensar que toda essa conversa não passa de uma perda de tempo, e que eu é que deveria estar cobrando argumentos de meus amigos: afinal, onde está a evidência de que a ilusão teleológica (de que a vida tem um sentido metafísico imposto por uma divindade bondosa) representa razão suficiente para levar as pessoas a se comportarem bem?
Se nem os monges do Santo Sepulcro conseguem evitar cenas ridículas de pugilato…
Richard Dawkins está se aposentando de sua posição em Oxford. De uns tempos pra cá virou “cool” dizer que Dawkins “é tão fundamentalista quanto” os religiosos que critica. Mas, como quase tudo que é “cool”, essa é uma afirmação que não sobrevive a dois segundos de reflexão mais profunda.
Digamos que você discorde de um muçulmano fundamentalista. Ele vai se achar no direito de matar você, perseguir sua família, depredar sua propriedade.
Digamos que você discorde de um cristão fundamentalista. Ele também via se achar no direito de matar você, perseguir sua família, etc, ou, se vocês viverem numa democracia ocidental com polícia por perto (como os EUA, digamos) talvez se limite a sentir uma profunda satisfação por saber que você vai arder no inferno e seus filhos e netos serão amaldiçoados.
Digamos que você discorde de Richard Dawkins. Ele vai se achar no direito de escrever um artigo (ou livro) tirando sarro da sua cara.
Sou só eu que noto a diferença?
Dawkins é veemente ao apresentar suas idéias, mas isso está longe de ser um defeito. Sei que vivemos num mundo onde se considera de bom tom que “sentimentos” e “crenças” dos “outros” sejam tratados com luva de pelica, mas a idéia toda me parece profundamente desrespeitosa: é como se encarássemos esses “outros” como criancinhas imaturas, e tivéssemos dó de mostrar a elas que Papai Noel não existe.
(E eles têm a oportunidade de tentar nos convencer dque Papai Noel existe, ora bolas)
Finalizando, veemência não é dogmatismo (ou fundamentalismo). Um homem veemente pode estar convicto de que tem os melhores argumentos sobre uma questão e apresentá-los de modo contundente, e ainda assim ter a honestidade intelectual de mudar de idéia, quando a evidência tornar isso necessário.
Já um homem dogmático (ou fundamentalista) simplesmente ignora a evidência em contrário, transforma-a em “heresia” ou, se tiver uma veia poética, disfarça-a como “mistério”.
De novo: sou só eu que noto a diferença?