Comecei a ler o “Alucinações Musicais” de Oliver Sacks e estou gostando muito do que li nas primeiras 60 páginas. O autor é neurologista e, neste livro, relata vários casos de pacientes cujo diagnóstico tem algo a ver com música. Um dos casos me chamou muito a atenção:
Sílvia N. tinha epilepsia musicogênica, ou seja, um certo tipo de música a fazia sofrer sérias convulsões. No seu caso, músicas napolitanas, que ela até então adorava pois a faziam relembrar sua infância. Após o aumento da frequência das convulsões, foram descobertas anormalidades anatômicas e elétricas em seu lobo temporal esquerdo, e em seguida ela foi submetida a uma cirurgia cerebral para tratar o problema.
Daí vem a parte mais curiosa: após a cirurgia, as músicas napolitanas não mais eliciavam convulsões em Sílvia, mas ainda assim ela evitava o contato com essas músicas, o que é de se esperar do ponto de vista comportamental. Quando um estímulo é muito punitivo, tendemos a evitá-lo, mesmo quando a função punitiva não está mais em vigor. Daí a gente continua sempre esquivando desses estímulos, sofrendo com os efeitos colaterais dessas situações de fuga e esquiva (medo e ansiedade) enquanto que a solução está no simples enfrentamento. Sílvia logo se encontrou em uma situação em que não conseguiu escapar da música, e se surpreendeu com o resultado. Voltou pra casa, juntou toda sua coragem, pôs para tocar as músicas e assim “curou” sua fobia.
Este processo poderia ser muito menos chocante para Sílvia se ela tivesse um psicólogo do lado. Falando nisso, por que não se vê mais psicólogos e neurologistas trabalhando juntos? Uma pena…
Costumo dizer que são 3 os cientistas que mais admiro: Um deles é o Darwin, simplesmente porque ele é o cara; tem também o Sagan, que com Cosmos e o Demônios me acordou para o mundo da ciência. E por fim, B. F. Skinner, que levou a psicologia ao campo das ciências naturais e é hoje reconhecido como o psicólogo mais influente do século 20.
Daí o leigo olha e pensa: “Ué? Skinner o mais influente? E Freud?”
Acontece que na psicologia muitos estudiosos buscavam explicar os comportamentos através de conceitos metafísicos ou subjetivos, enquanto que outros, tentando torná-la uma ciência natural, excluíam o estudo da subjetividade humana. Skinner, com sua proposta behaviorista radical, virou a psicologia do avesso e conseguiu promover o estudo científico dos comportamentos sem deixar de lado os eventos privados.
Mas eu quero falar sobre descobertas, já que este post faz parte do I Carnaval Científico do Lablogatórios, uma blogagem coletiva com o tema “Grandes Descobertas Científicas”. E o que foi que esse tal Skinner descobriu?
Skinner descobriu o condicionamento operante (quê?). Ele criou a “caixa de Skinner”, onde era colocado um rato privado de alimento. Naturalmente, o rato emitia vários comportamentos aleatoriamente e quando ele se aproximava de uma barrinha perto da parede, Skinner introduzia uma gota d’água na caixa através de um mecanismo e o rato a bebia. As próximas gotas eram apresentadas quando o rato se aproximava um pouco mais da barra. As outras quando o rato encostava o nariz na barra. Depois as patas. E assim em diante até que o rato estava pressionando a barra dezenas de vezes até saciar completamente sua sede. Foi observado que os comportamentos do rato que eram seguidos de um estímulo reforçador (a água) aumentavam de frequência, enquanto outros diminuiam. Igual a seleção natural onde as espécies mais adaptadas sobrevivem e as menos vão se tornando mais raras ou eventualmente desaparecem.
Com este princípio Skinner passou a modelar diferentes padrões comportamentais em diferentes espécies (muitos vídeos sobre isso estão disponíveis em minha página no Youtube).

Graças a esta descoberta, hoje (depois de estudos muitíssimos mais avançados) somos capazes de explicar (e modificar) uma vasta gama de padrões comportamentais de amebas, golfinhos, ratos, pombos, cachorros, humanos, e até já existem estudos com estes resultados em células neuronais. A psicologia comportamental é a que traz resultados mais rápidos na clínica e a cada dia é usada em novos ambientes (escolas, hospitais, organizações, etc).
Muitos não gostam de ver o comportamento humano ser explicado através de leis científicas, muito menos em pesquisas de laboratório. Deste modo, a psicologia comportamental é frequentemente mal interpretada e rotulada de superficial, mecanicista ou até manipuladora. Eu só espero que aqui neste blog eu consiga exorcizar alguns destes “demônios” que ainda assombram a psicologia.
Dê uma olhada nessa foto que tirei semana passada ao fim de uma aula:

O assunto era:
(a) Matemática
(b) Física
(c) Química
Quem vê esse quadro chuta qualquer coisa, menos psicologia.
Mas a psicologia comportamental trabalha o tempo todo com relações funcionais entre eventos e probabilidades de ocorrência de comportamentos, então é comum aparecerem termos (e funções) emprestadas da matemática e até da física. Quem não conhece até se assusta, mas na verdade ainda estamos um pouco longe de prever exatamente probabilidades de comportamentos humanos complexos como nos livros de ficção científica (só espero que não por muito tempo!).

Sabe a Lisa Kudrow? A Phoebe de Friends? Então, agora ela está em uma série que pode ser vista pela net chamada “Web Therapy” onde ela é uma psicóloga realizando estranhos atendimentos de 3 minutos pela webcam.
Já achei estranho ver a Lisa como psicóloga, ainda mais uma doidona como essa, que não consegue deixar seus problemas pessoais de lado. Enfim, super divertido! Mas por enquanto, só em inglês!
“É verdade essa história que psicólogo tá sempre analisando todo mundo?”
O Hotta me perguntou isso durante um bate-papo num café de São Paulo e confesso que fiquei meio sem saber o que responder. Tem gente que diz que analisa mesmo: tem professor que, como tarefa, pede a seus alunos para observar grupos de pessoas e suas interações na cantina da faculdade. Já outros dizem que não dá pra analisar todo mundo, assim como o proctologista não põe o dedo em todo mundo.
Engraçado que no dia anterior uma amiga tinha me dito: “Eu sempre reparo nos tênis dos homens. Só o tênis já diz muito, por exemplo, se o cara tá de all star quer dizer que ele é mais descolado, deve curtir um rock e tal…” - E ela nem é psicologa!
A meu ver todo mundo analisa todo mundo! A diferença é que quem trabalha com comportamento pode ter um pé à frente em suas interpretações. Ah sim, devemos nos lembrar que tudo o que fazemos são interpretações! A partir do modo como a outra pessoa anda, conversa, se posiciona, se veste, fazemos suposições e apesar disso ter grande valor adaptativo, nem sempre quer dizer muita coisa.
Para realmente se saber porque uma pessoa faz uma coisa ou outra, o que menos importa é a topografia do comportamento (a forma). O que se deve buscar é a função: em que contextos o comportamento ocorre e quais as consequências posteriores. Essas situações e consequências interagem a todo momento com nossos comportamentos em uma relação funcional (igual da matemática), e assim podemos saber realmente o que os mantém. Descobrir todas as relações que envolvem um comportamento não é nem um pouco simples e é o que mais fazemos na clínica.
Nada nos impede de buscar quais as pistas mais adequadas, através da linguagem corporal ou perfis em sites de relacionamentos na internet. Mas continuam sendo suposições.
Não é raro a gente ver (em todo lugar, inclusive salas de aula) pessoas querendo explicações simples e mágicas para comportamentos como se tudo pudesse ser explicado de forma simples e rápida. Tirei alguns exemplos em menos de 5 minutos na seção de psicologia do Yahoo! Respostas:
“O nosso pior inimigo é a solidão pq nos faz sentir saudades de pessoas que nos fazem mal?”
“Pq existem pessoas que adoram ser o centro das atenções?”
“Como ser uma pessoa altamente motivada?”
“Pq existem pessoas que preferem desabafar com desconhecidos, do que com amigos?“.
Quem estiver em Goiânia e quiser saber mais sobre Análise Funcional no Contexto Clínico farei uma apresentação sobre isso amanhã a partir das 19 horas na III Mostra de Trabalhos Científicos da Pós-Graduação, na área IV da Universidade Católica de Goiás.
Sabe quando você está atravessando a rua e de repente alguém dá uma buzinada tão intensa que seu coração dispara, você dá um pulo e corre primeiro pra depois olhar o que era? Ou quando um cachorro te persegue e você descobre que consegue correr muito mais rápido do que imaginava? Ou mesmo aquela sensação ruim ao receber uma notícia muito chocante ou assustadora.
Todos estes eventos costumam eliciar em nós as respostas automáticas de luta ou fuga chamadas de ansiedade, algumas delas são: coração acelerado, suor, palpitação, tremores e em casos mais extremos até falta de ar, tontura e sensação de desmaio.
Agora imagine ter essas sensações não só nestes eventos específicos, mas de manhã, no trabalho, em casa, frente a outras pessoas, na faculdade e até em casa, sozinho, antes de dormir. Essa ansiedade começa a prejudicar sua atenção, a te deixar cada vez mais fatigado e impaciente, corrompendo os vários aspectos da sua vida: social, profissional, amoroso, etc.
Assim é o Transtorno de Ansiedade Generalizada! Quem mora em Goiânia poderá saber mais sobre o assunto comparecendo amanhã às 7:20 na área IV da Universidade Católica de Goiás, onde falarei sobre o assunto em uma mesa-redonda para estudantes do curso de psicologia. Está feito o convite!
15 a 19 de setembro de 2008
17/Setembro - Auditório da Área IV
Mesa-Redonda 7 - Clínica Comportamental
Coordenador: Profº. Doutorando Flávio da S. Borges
7:20 - Bulimia: Correlação da auto-estima e preocupação excessiva com a forma e peso - Iran J. S. Oliveira - Profª Ms. Gina Nolêto Bueno
7:40 - Rupturas no relacionamento terapêutico: Uma releitura Analítico-Funcional - Alysson Assunção - Profº. Dr. Luc Vandenberghe
8:00 - Aprendizagem de habilidades sociais e controle de ansiedade - Thaissa N.R. Pontes - Profº Doutorando Antonio Carlos Godinho
8:20 - Enurese Noturna: Quando urinar se torna um problema - Adriana Perim Maciel - Profº Doutorando Flávio da S. Borges
9:00 - Análise Funcional e o Transtorno de Ansiedade Generalizada - Felipe R. Epaminondas - Profª Drª. Ilma A. Goulart de Sousa Britto
9:20 - Discussão
“Felipe, qual a diferença entre indivíduos “viciados” em videogame e outros viciados, por exemplo, em trabalho ou literatura ou ciência? O conceito de vício aplicado a situações nas quais não há um catalizador químico podem ser entendidos como vício ou apenas como desvios comportamentais? Será que dá para definir um viciado por uma economia das atividades (ele passa mais tempo em frente ao computador negligenciando outros aspectos igualmente importantes da sua vida)? Do meu ponto de vista parece haver aí um conceito de eqüilíbrio que deveria ser explicitado e melhor fundamentado. O que você acha?” - por Daniel Christino

Todo comportamento deve ser analisado levando em conta as bases biológicas, da aprendizagem (ou seja, dos processos comportamentais respondentes e operantes) e, claro, o contexto cultural em que ele ocorre. Meu papel como psicólogo é estudar a aprendizagem.
É extremamente difícil (se não impossível) definir até onde a pessoa está dependente por um processo fisiológico ou se “é tudo psicológico”. Devemos nos lembrar que mesmos aqueles dependentes em drogas químicas como a nicotina, a maconha ou a cocaína possui outros ganhos além da “viagem” proporcionada. Existe o alívio de ansiedade, a socialização, a “companhia” do cigarro nas horas de solidão, entre outros motivos que serão reforçadores ou não dependendo da pessoa.
Usei o termo “viciado em WoW” mas isso não implica uma dependência biológica, este fenômeno nem existe categorizado como transtorno pelas associações de psiquiatria ou psicologia. Mas a metáfora vale pois no vídeo fica evidente o quanto o jogo prejudica a vida do rapaz e até a da sua mãe. Outras pessoas chegam ao ponto de se doparem para participar de campeonatos.
Vendo por este lado, o viciado em videogame não se difere tanto do viciado em maconha, por exemplo. Mas e o “viciado” em trabalho, literatura, ciência ou blogs?! O padrão comportamental é semelhante, mas as chances de você prejudicar sua vida com estes hábitos não é tão grande. Claro que fatores biológicos dos vícios em drogas possuem efeitos absurdos nas pessoas e não devem ser negligenciados! Christiane F. que o diga!
Pessoalmente, acho maravilhoso o Carl Sagan ter sido um “viciado em divulgação científica“, caso contrário acho que esse blog nem existiria.

Quadro 1: “Esta é uma piada sobre um cara que vai ao psiquiatra…”
Quadro 2: “O psiquiatra diz pra ele que ele tem ‘Haphefobia‘ e então o cara diz ‘Bem, neste caso não vou me preocupar… Haphephobia é melhor do que nada!”
Quadro 4: “Piadas de psiquiatras devem estar fora de moda!”
Até que esta piada não vai muito longe da realidade não…
Já falei sobre a possibilidade de vício em videogames aqui, até mesmo colei o vídeo a seguir, mas desta vez ele está legendado em português:
Esse vídeo levanta tantas questões que eu nem sei por onde começar! Bom, vamos lá: eu acredito que seja possível sim “viciar” em videogames. Mas o processo é um pouco diferente do vício à nicotina, por exemplo. Deve-se analisar outros fatores que incentivam a manutenção desse comportamento problemático, no caso, o jogar em excesso.
Primeiro: o reforçador acontece intermitentemente (ora ele ganha, ora ele perde, como num cassino). Segundo: há o reforçador social facilitado, dentro do jogo é muito maior o número de pessoas com interesses similares ao do jogador. Terceiro: alguém corta a mesada do moleque? Este jogo não precisa de mensalidade? Quem está pagando? A mãe? E ela está reclamando? Ah, pelo menos apareceu na televisão, né?
Retirar o jogo do garoto ou pelo menos limitar os horários de jogo é a solução mais adequada. Também vale não pagar outro teclado ou outro mouse quando ele os quebra: ele precisa saber lidar com as consequências de seus atos. Outro fator que talvez lhe fosse útil e poderia ser trabalhado em terapia é encontrar outros meios de socialização sem o uso do computador.
Ah, e não dêem ouvidos à psicólog(ist)a desse vídeo! Como assim o DSM ser a bíblia dos psicólogos? Talvez seja dos psiquiatras mas não dos psicólogos, longe disso! O DSM é um livro que descreve a topografia dos comportamentos mais comuns em diferentes transtornos. Para nós, analistas do comportamento, a função destes comportamentos-problema é muito mais importante do que a topografia! Diferentes pessoas com o mesmo diagnóstico podem se comportar de maneiras completamente diferentes! Mas esta discussão deixarei para outro post, a intenção aqui foi só dividir o vídeo mesmo! ![]()
Dia 27 de agosto foi o dia do psicólogo e eu nem comentei nada por aqui (passei o dia preso em um ônibus a caminho de Campinas-SP), mas hoje é dia do biólogo e vou aproveitar essa oportunidade para fazer um interessante comentário:
B. F. Skinner criou a Análise do Comportamento quando em 1938 em seu livro “The Behavior of Organisms” (O Comportamento dos Organismos) ele começou a descrever as leis que governam, adivinhe, o comportamento dos organismos!
Curiosamente, psicologia não foi sua primeira escolha, Skinner se graduou primeiro em letras, mas sem sucesso na área, tentou em seguida a psicologia. Após fundar e muito escrever sobre a Análise do Comportamento e o Behaviorismo Radical, quebrando os moldes da psicologia tradicional, Skinner ainda chegou a afirmar que sua ciência tinha mais a ver com a biologia do que com a psicologia. A seguir o trecho de uma entrevista em que ele afirma isso:
“Quatro questões em quatro minutos” - retirado de: JEAB and JABA Audio Links
“1. O que é a Análise Experimental do Comportamento? Você acha que é psicologia
, é apenas uma parte da psicologia, mais que a psicologia ou é a psicologia?
R: Eu acho que é parte da biologia! Eu vejo o organismo humano como nada mais que um organismo, e o que ele faz é apenas o comportamento e isso é tudo. A ‘psiquê’ da psicologia é irrelevante hoje em dia, no entanto, a psicologia como uma profissão já caminhou bastante (…) acho que pode ser uma ciência independente que faz parte da biologia.”
Infelizmente tive dificuldade em traduzir as outras três questões devido à qualidade da gravação, achei melhor nem o fazer do que deixar um texto quebrado pela metade, mas pelo menos a parte que eu queria eu consegui!
Enfim, não me importa se a Análise do Comportamento é uma psicologia ou parte da biologia, contanto que continuemos produzindo conhecimento científico assim como os biólogos e os cientistas de outras áreas! E viva nós cientistas!




