Posts Tagged ‘Paleontologia Emocional’

O Artista

Sunday, May 10th, 2009

Recriando o poeta, não sei o que sou, mas sei que não sou um artista. Peguei nas palavras e adaptei-as. Porquê? Porque me deu na real gana, ou simplesmente me deu jeito. Não que tivesse sido um acto artístico, mas é uma actividade eminentemente humana. Todos o fazem. Jogar, recriar, manejar palavras.

Vem este devaneio a propósito de algo que recentemente vi na TV e li nos jornais. Leonel Moura, artista plástico, não deseja “ser como os pintores dos séculos XIX e XX”. Legítima aspiração da insatisfação criadora.
E que fez o autor para ascender a esse Olimpo cultural?
Adoptou um robô. O bichano, construído pelo Instituto Superior Técnico (IST), foi alimentado a palavras de Herberto Helder e amestrado para garatujar, qual protoaprendiz de pintor. O toque divino da coisa foi inculcar na natureza robótica um algoritmo que permitiu ao bicho grafar palavras aleatórias do poeta em folhas imaculadas. O artista transportou o ser para museus ou galerias, onde a mascote foi exibida como singularidade moderna.

Mas que raio, não poderia simplesmente a maravilhosa criatura artística de polegar oponível ter copiado Herberto?
Não.
Pelos vistos, para Leonel Moura tudo o que é humano lhe é estranho. Iluminado pelo aconchego mecânico, o artista afirma-se moderno e declarou ao jornal i ser a “sua” obra “um marco na História da Poesia e da Literatura”. O jornal não se deu ao trabalho de entrevistar o verdadeiro obreiro…
Pode ser que seja um marco na História, mas netos meus far-me-ão rolar na cova se se recordarem do artista e do livro, agora editado, com rabiscos da estimável criação do IST.

Como dizia alguém: “não interessa saber fazer; interessa ter o número de quem sabe fazer.” Número de telefone, ou, neste caso, até mesmo número de série, digo eu.
Bastou, então, ligar para o IST, pois, como toda a gente sabe, o Herberto Helder não deve atender telemóveis.
Além disso, uma faca não basta para cortar o fogo criativo do Moura.

Notas:
Herberto Helder

Leonel Moura - “Poesia robótica”

Imagens:
daqui

poema de “Poesia Robótica”

Desígnios

Sunday, April 19th, 2009

Não que me fizesse muita diferença saber quem seria o novo Pedro, mas sentia já falta do polaco.

Continuava isolado pelas bandas patagónicas, a trabalhar sem telemóvel ou qualquer outro tipo de estímulo exterior.
Ele havia abalado de manhã para a povoação mais próxima, para comprar alimentos que traria ao final do dia. Sempre eram várias horas de condução em literal corta-mato.
Chegou à hora prevista, enquanto comíamos no final de mais um dia de trabalho de campo.
Enquanto o meu corpo ansiava pela encomenda de tabaco, a minha cabeça provocou-lhe a pergunta:
“Então, já temos novo Papa? E, por favor, não me digas que é o alemão…!”
Sim, já havia.
E sim, era o alemão.
Acendi um cigarro e agarrei-me ao mate.

Que havia eu de fazer com estes desígnios?
Continuar, ao fim de quatro anos

Imagens - Luís Azevedo Rodrigues

Marcas

Sunday, March 29th, 2009

A Icnologia estuda marcas.
De vários tipos.
Mas sempre deixadas por seres vivos.

Imagens - Luís Azevedo Rodrigues - Ann Arbor, Michigan (2005); Ferragudo (2008).

Dança Sísmica

Thursday, March 26th, 2009

O conceito parece-me prometedor - fundir a dança e o minimalismo (?) de dados sísmicos.

A Terra toca para nós…


Dançaremos a contento de ambos?

“Technology and art unite to create dance show based on volcanic sounds of the earth

Wednesday 25 March 2009, Cambridge, UK: For the first time ever, a modern dance company has performed to music generated from seismic data, recorded from four volcanoes across three continents. This unique event was facilitated by DANTE, the provider of high speed research and education networks, the two distributed computing projects, Enabling Grids for E-sciencE (EGEE) and E-science grid facility for Europe and Latin America (EELA), as well as CityDance Ensemble, a prestigious company based in Washington, DC.

The dance, titled The Mountain, was part of CityDance Ensemble’s Carbon, a work-in-progress about climate change. Originally presented in sold-out performances on 14 and 15 of March at the Music Centre, Maryland, USA, it is now available to view here. To download the video click here.”

Referência - daqui

Imagem - da referência

A Liberdade e a Cardiologista

Wednesday, March 25th, 2009

Abandonei o silêncio penitente a que se remetem os pacientes.
Farto da parede muro-das-lamentações que me tapava a vista, falei.

“E o sal, doutora?”.

Não o meu; o da Assembleia da República.

“Acho que legislaram bem. Apesar de não ser original, já que os teores de sal são já controlados em muitos alimentos…Olhe, até nos refrigerantes eles têm põem sal!”.

Reforçou o argumento espetando-me o peito com maior intensidade.

“Bem…”, ganhei balanço, entre o desconforto do ecocardiógrafo e um novo quebrar do silêncio asséptico.

“Bem, não se trata só de uma questão de Saúde Pública. É também uma questão de liberdade individual, de escolha pessoal. A seguir vem o quê? A cor dos meus boxers?”.

Agradeci encontrar-me num cardiologista e não num urologista, já que estética cromática é uma lacuna da minha personalidade.

“Liberdade? O sr. sabe o custo para os contribuintes que o consumo excessivo de sal origina? Sabe que o cancro do estômago está intimamente relacionado com teores de sal na urina, que por sua vez reflectem o consumo de sal? É caríssimo, não há dinheiro. É preferível cortar essa pequena liberdade!”.

O miocárdio neste momento deve ter posto a língua de fora porque me perguntou:

“Tem andado a sentir-se bem?”.

Maldita tecnologia, pensei. Não dá a mínima hipótese, qual detector de mentiras.

“Claro que tenho, doutora. O meu dealer salino está em promoções!”.

Imagem - daqui

Espanca

Saturday, March 21st, 2009

No Dia Mundial da Poesia, o único poema que já soube de cor…

“Se tu viesses ver-me hoje à tardinha,
A essa hora dos mágicos cansaços,
Quando a noite de manso se avizinha,
E me prendesses toda nos teus barcos…

Quando me lembra: esse sabor que tinha
A tua boca… o eco dos teus passos…
O teu riso de fonte… os teus abraços…
Os teus beijos… a tua mão na minha…

Se tu viesses quando, linda e louca,
Traça as linhas dulcíssimas dum beijo
E é de seda vermelha e canta e ri

E é como um cravo ao sol a minha boca…
Quando os olhos se me cerram de desejo…
E os meus braços se estendem para ti…”

Florbela Espanca, 1894-1930

Imagem - daqui

Dragões bebé

Sunday, March 1st, 2009

Imagens de juvenis de dragões-de-Komodo (Varanus komodoensis).
Algo mais sobre esta espécie em “Podcasts, modernices e erros”.

Baby Komodo Dragons
http://mediaservices.myspace.com/services/media/embed.aspx/m=52518561,t=1,mt=video

Falar aos trutas…TED

Thursday, February 19th, 2009

Mais uma das conferências TED.
Por um colega.
O paleontólogo Paul Sereno.
Sobre o passado, dinossáurios, escavações…enfim.

http://video.ted.com/assets/player/swf/EmbedPlayer.swf

Matar o pai?

Tuesday, February 10th, 2009

Nada disso.
Antes sim, deixar descansar a genialidade do pai para que a Evolução continue a singrar por si.
Sem esquecer a originalidade e genialidade da obra de Darwin.
É disso que trata um ensaio no New York Times de hoje.

“But our understanding of how life works since Darwin won’t swim in the public pool of ideas until we kill the cult of Darwinism. Only when we fully acknowledge the subsequent century and a half of value added can we really appreciate both Darwin’s genius and the fact that evolution is life’s driving force, with or without Darwin.”

“Darwinism Must Die So That Evolution May Live”, Carl Safina
New York Times, 10 de Fevereiro de 2009

Imagem - daqui

Mudança de paradigma…

Monday, February 9th, 2009

Não sei se foi mudança de paradigma científico mas hoje, no café de esquina, um cão chamado Newton foi convidado a sair…

Imagem - Luís Azevedo Rodrigues, Vouga.