Posts Tagged ‘Comportamento’

A Liberdade e a Cardiologista

Wednesday, March 25th, 2009

Abandonei o silêncio penitente a que se remetem os pacientes.
Farto da parede muro-das-lamentações que me tapava a vista, falei.

“E o sal, doutora?”.

Não o meu; o da Assembleia da República.

“Acho que legislaram bem. Apesar de não ser original, já que os teores de sal são já controlados em muitos alimentos…Olhe, até nos refrigerantes eles têm põem sal!”.

Reforçou o argumento espetando-me o peito com maior intensidade.

“Bem…”, ganhei balanço, entre o desconforto do ecocardiógrafo e um novo quebrar do silêncio asséptico.

“Bem, não se trata só de uma questão de Saúde Pública. É também uma questão de liberdade individual, de escolha pessoal. A seguir vem o quê? A cor dos meus boxers?”.

Agradeci encontrar-me num cardiologista e não num urologista, já que estética cromática é uma lacuna da minha personalidade.

“Liberdade? O sr. sabe o custo para os contribuintes que o consumo excessivo de sal origina? Sabe que o cancro do estômago está intimamente relacionado com teores de sal na urina, que por sua vez reflectem o consumo de sal? É caríssimo, não há dinheiro. É preferível cortar essa pequena liberdade!”.

O miocárdio neste momento deve ter posto a língua de fora porque me perguntou:

“Tem andado a sentir-se bem?”.

Maldita tecnologia, pensei. Não dá a mínima hipótese, qual detector de mentiras.

“Claro que tenho, doutora. O meu dealer salino está em promoções!”.

Imagem - daqui

O homem que não via a Esquerda

Thursday, February 26th, 2009

José era um homem político.
Aparentemente normal, esbarrava à esquerda.
Esbarrava não será o termo apropriado: José atropelava a esquerda.
Via o que se passava.
O que se movia e evoluía à sua esquerda.
As necessidades e carências.
Mas não os reconhecia como seus, não os intuía, ainda que os visse.
Por isso mesmo, maltratava esse lado político ou, no mínimo, apenas o atropelava.
José sofria de uma deficiência no seu lobo occipital político direito.
Sofria de agnosia lateral.
A Educação. A Saúde. O Emprego.
Via-os.
Mas não os reconhecia como seus.
José sofria de agnosia política.
Agnosia lateral.
À esquerda.

“A agnosia é uma perturbação pouco frequente que se caracteriza pelo facto de a pessoa poder ver e sentir os objectos, mas não os pode associar ao papel que habitualmente desempenham nem à sua função.
A
s pessoas afectadas por certas formas de agnosia não conseguem reconhecer rostos familiares nem objectos correntes, como uma colher ou um lápis, embora os possam ver e descrever. A agnosia é causada por um defeito nos lobos parietais e temporais do cérebro, que armazena a memória dos usos e a importância dos objectos conhecidos. Muitas vezes, a agnosia aparece subitamente depois de um traumatismo craniano ou de um icto. Algumas pessoas com agnosia melhoram ou recuperam de forma espontânea enquanto outras devem aprender a assumir a sua estranha incapacidade. Não existe um tratamento específico.”
daqui

“Rather, damage to the posterior parietal lobe produces agnosia, an inability to perceive objects through otherwise normally functioning sensory channels. The deficits with agnosia are complex, such as defects in spatial perception, visuomotor integration, and selective attention. The agnosias most commonly seen with lesions of the right posterior parietal visuocortex are among the most remarkable that can be seen in neurological patients. A particularly dramatic agnosia isastereognosis, an inability to recognize the form of objects through touch. This agnosia is commonly accompanied by a left-sided paralysis.”
Kandel et al. 2000, pp. 392-393

Referências:
“Seeing the World in Half-View” Scientific American, February 2009, Mind & Brain
http://www.sciam.com/article.cfm?id=seeing-the-world-in-half-view

Kandel ER, Schwartz JH, Jessell TM 2000. Principles of Neural Science, 4th ed. McGraw-Hill, New York.

Imagens:
1- daqui
2- Kandel et al. 2000, figura 20-12.
“The three drawings on the right were made from the models on the left by patients with unilateral visual neglect following lesion of the right posterior parietal cortex. (From Bloom and Lazerson 1988.)”
3- Kandel et al. 2000, figura 20-14. “The neglect of space on the left after injury to the right posterior parietal cortex may be remarkably selective. A patient may not be visually aware of all parts of an object but still able to recognize the object. Patients with neglect after a right hemisphere stroke were shown drawings in which the shape of an object is drawn in dots (or other tiny forms). The patient was then asked to mark with a pencil each dot. In the figure here the patient was able to report accurately each shape (rectangle, circle, letter E, letter H) but when required to mark each dot with a pencil she neglected the left half of each object. (Adapted from Marshall and Halligan 1995.)”

Manada

Wednesday, January 28th, 2009

Escorria.
Escorria mesmo e parecia água.
O som era inconfundível.
“Pode escorrer água do chão?”
Contra natura.
“Salto?”
O som que lhe entrava pelos ouvidos e lhe confundia a razão, fez agora sentido.
No meio da escuridão intermitente, estava a 20 metros do chão, prestes a saltar para o vazio.
As luzes pirilâmpicas não cessavam.
Não se podia abrigar do lado esquerdo.

Estava atrasado e não entendia como os da meteorologia se enganam cada vez menos – chovia e não parava de chover, tal como haviam repetido na rádio.
Ainda abrandou.
Sempre era uma cortina de granizo que não se abria perante o pára-brisas.
Rodou e rodou.
Tudo parecia mais luminoso nesse final de tarde em que caía granizo.
Rodou e rodou.
Se se encolhesse o bastante, menor seria a probabilidade de algo metálico lhe conhecer o corpo.
A dança mecânica tinha acabado.
O seu lado anti-social, aparentemente, também se revelava com metais.
E agora?
Sair.
Fugir da manada e saltar para lá da barreira.
Do lado esquerdo.
Escapar das involuntárias apresentações automóveis.
E conhecer o vazio.

Tinha migrado para o lado direito e a manada não parava.
Havia que os desviar.
Irracionalizados pelo caminho obrigatório, não findavam a passagem.
Havia que os parar.
Como?

P.S.- qualquer semelhança entre este texto e um despiste na A8 não é pura coincidência.

Imagem - indicações na mesma.

Luso moods

Tuesday, January 13th, 2009

Pelos vistos adoramos cães e jogadores da bola.
Um já ganhou.
O outro está em lista de espera.
E nós babamos.
Somos assim.

Imagem - do site do Público

Currículo cívico

Monday, January 5th, 2009

Entrevista a Medina Carreira - SIC, 10 de Dezembro de 2008.

Esta entrevista deveria fazer parte do currículo cívico de qualquer português.
Mesmo o do sr. Primeiro-ministro.
Recomendo a visualização do vídeo aqui presente, em particular a partir dos 4’10’’, sobre a Educação.
[youtube=http://www.youtube.com/watch?v=FD1PZC9Br3A]

Todos os outros vídeos estão disponíveis aqui.

Faça a legenda

Friday, December 19th, 2008

Imagem - daqui

Belos feios

Wednesday, November 12th, 2008

Não quero imaginar o motivo deste retrocesso civilizacional.
E que baixará o preços.
A Comissão Europeia, num gesto que parece indicar que estão fartos do seu próprio Éden legislativo, que tudo controla e parece unificar, decidiu que os menos perfeitos também são bons.
Neste caso os vegetais.
Já era tempo.
Já era tempo de acabar com tanto branco e tanta saúde.

Imagem - Claudio Menghetti - campanha facas Tramontina

É paranóico?

Friday, October 24th, 2008

Neste podcast do The Guardian pode ouvir-se a descrição de uma investigação sobre paranóia.
O estudo, levado a cabo por Daniel Freeman do King’s College, utilizou um ambiente virtual correspondente ao metro londrino.
200 voluntários tinham que percorrer o ambiente e eram avaliadas as suas reacções e interacções com os restantes passageiros fictícios - avatares.

Ainda no podcast pode ficar a conhecer-se os hábitos higiénicos dos homens britânicos - os do norte têm as mãos mais sujas, diz o estudo…

A ouvir em MP3 - Science Weekly: How paranoid are you?

Referências
Freeman, D. et al. A virtual reality study of paranoid thinking in the general population. British Journal of Psychiatry, 1 April 2008.

Imagens - daqui e Adrian Fisk

Subprime natural?

Tuesday, October 21st, 2008

Porque não poderia haver o crash e respectivas consequências na Natureza?
Antes de mais seria conveniente explicar genericamente o que gerou esta crise financeira.

Do que a minha mente limitada em termos económicos entendeu, e aconselhado por um amigo economista (obrigado PE), o negócio bancário assenta na confiança que o cliente deposita (literalmente…) no seu banco.
E confiança em quê?
Para que quem recebe o dinheiro (depósitos, PPR, etc.) faça investimentos correctos e seguros de forma a gerar mais dinheiro para o depositante.
O que agora se sabe é que muitos gestores bancários iniciaram e perpetuaram verdadeiros negócios de banha-da-cobra: emprestaram dinheiro a quem não o podia pagar em hipotecas de casas, casas essas que desvalorizaram tremendamente após o “colapso” do mercado imobiliário norte-americano. Esses empréstimos “envenenados” foram vendidos a terceiros contaminando de forma global muitas outras instituições bancárias.
Confuso?
Pois…veja o vídeo no final que pode ser que ajude, enquanto sorri com a comicidade da situação.
À grandeza da festa vem juntar-se a descoberta da alma-do-negócio, o que leva à desconfiança de quem tinha comprado acções dos grandes bancos “chico-espertos”. Os investidores correm a vendê-las massivamente, gerando ainda mais desconfiança no mercado, numa espiral de histeria.

Um dos contra-exemplos naturais que me lembrei e que contraria esta falta de confiança humana foi o da partilha de alimentos.
Os morcegos-vampiro (Desmodus rotundus) partilham, por vezes, o seu quinhão sanguíneo com outros da mesma colónia mas que não se alimentaram durante a noite. Este facto é tanto mais significativo quanto estes mamíferos dificilmente sobrevivem a mais do que duas noites sem alimento.
A partilha de alimento com um membro da colónia não-familiar directo, ou seja, geneticamente afastado, enquadra-se no que os etólogos designam por altruísmo recíproco.
Mas o que ganha o generoso morcego ao partilhar o seu alimento com um companheiro menos afortunado e, ainda por cima, que não é seu parente directo?
Se o receptor do “capital” vermelho for aparentado com o doador o comportamento altruísta pode ser compreendido pelo favorecimento dos próprios genes, uma vez que ambos os morcegos partilham um património genético comum. Assim, esses genes teriam maiores probabilidades de singrar (ou sangrar?) no futuro.
Mas o altruísmo verifica-se mesmo entre morcegos geneticamente afastados, o que invalida aquela hipótese.
Então o que justifica tal altruísmo?

Um estudo de 1990 publicado por Gerald Wilkinson avaliou que o custo-benefício da transacção sanguinolenta entre morcegos-vampiros é mais favorável para o receptor do que prejudicial para o doador.
Na figura está ilustrada a “transacção” entre o doador e o receptor. Quando o doador partilha o seu pecúlio, esta acção implica uma redução no tempo máximo até se alimentar, ou seja, uma redução em 6 horas no período até se alimentar de novo; em contrapartida, o receptor bafejado (será melhor dizer regurgitado) pela sorte ganha 18 horas de tempo de vida.
Desta maneira, todos os membros da colónia que partilham aumentam as suas possibilidades de sobrevivência, uma vez que o dador de hoje poderá ser o receptor de amanhã, ganhando toda a colónia.
Tentando passar este caso para as sociedades humanas e, concretamente, para o que se passa no mercado de capitais… bem… esqueçam!
Melhores tempos virão.
Esperemos.
E não voltem a ficar repugnados quando ouvirem falar de morcegos-vampiros…eu fico enojado com determinados gestores bancários, mas cada um cuida de si…
Excepto
nos morcegos-vampiros.
Aí, todos cuidam e são cuidados por todos.

P.S. - fica aqui uma tabela de outras espécies animais em que a troca de alimentos ocorre frequentemente, bem como as possíveis interpretações biológicas.

Referências

Stevens, J.R. and Gilby, I.C. 2004. A conceptual framework for non-kin food sharing. Animal Behavior 67: 603-614
Wilkinson, G. S. 1984. Reciprocal food sharing in the vampire bat. Nature 308: 183.
Wilkinson, G. S. 1990. Food Sharing in Vampire Bats. Scientific American. February: 76-82.
Imagens
Casa dos Morcegos
Stevens and Gilby (2004)

[dailymotion id=k3F4EVggs12hgJHSpY]
The Last Laugh - George Parr - Subprime - subtitulos
by erioluk

Falta de chá

Monday, October 20th, 2008

Quatro casais ingleses.
Quatro pequenos-almoços iguais.
Iguais aos da sua querida e sombria ilha.
Tinham comprado, num espírito comunitário que só a distância de casa justifica, uma caixa de chás.
Exóticos e difíceis de encontrar neste canto da Europa, para mitigar o costumeiro desejo, pensei.
Lipton.
Apenas Lipton.
Falta de chá.
É o que devem achar do Algarve.
Falta de chá, pensei eu.

Imagem - daqui