Depois de um dia inteiro de trabalho monitorando aves marinhas nas praias de Quissamã - RJ, eu me preparava para entrar no carro e me refugiar do sol escaldante quando vi de relance um inseto pequeno, um tanto quanto esquisito, passar correndo do lado do meu pé. O bicho parou em um pequeno monte de conchas a uns dois metros de mim e desapareceu da minha vista. Curioso, dei dois passos para frente e lá se foi o bicho correndo de novo, me aproximei com mais cautela e tive a felicidade de descobrir que o tal “inseto esquisito” era, na verdade, um casal de besouros-tigre (Família Carabidae, Subfamília Cicindelinae) acasalando a beira mar.
Máquina em punho, fui cuidadosamente me aproximando, já estava com o dedo no disparador quando o casal de besouros apaixonados partiu em correria de novo, tentei me aproximar mais algumas vezes, mas os besouros pareciam ser bastante tímidos e não quereriam ter a sua intimidade registrada. Foi quando um dos meus amigos se aproximou para ver o que eu estava fazendo ajoelhado na areia, os besouros partiram em correria de novo, só que desta vez pararam bem do lado do meu joelho. Virei meu corpo com todo cuidado do mundo, me aproximei mais um pouco, prendi a respiração, estiquei o pescoço e CLICK!
Ornitólogos são criaturas que quase sempre andam olhando para cima. Se por um lado este hábito nos auxilia na hora de encontramos nossos objetos de estudo, por outro, pode ocasionar alguns efeitos colaterais indesejados. Não me importo muito com os torcicolos que vez ou outra me deixam de pescoço duro, especialmente em área de florestas na Amazônia com copas de árvores de 40 metros de altura, afinal, são os “ossos do ofício”. O que me incomoda mesmo é a sensação constante de passar batido por muito bicho pra lá de interessante.
O belíssimo sapo-flecha da foto acima, um Adelphobates quinquevittatus, é endêmico da região próxima ao rio Madeira, e ia ser mais um animal incrível que ia me passar despercebida se ela não tivesse pulado em cima da minha bota durante um trabalho de campo em Rondônia. Sempre quis muito ver um dendrobatídeo ao vivo e a cores e acabou que não fui eu que o encontrei, mas ele que pulo em cima de mim.
Da bota ele pulou de volta para o chão e logo me apressei em tirar a máquina da mochila, quando olhei para o chão de novo ele havia sumido. Passaram-se alguns desesperadores segundos até encontrá-lo novamente e quando o achei lá estava ele fazendo pose no meio dos fungos, só faltou pedir: “ei macaco esquisito, tira uma foto minha aqui!”.
Era um final de tarde e eu estava de saco cheio de ficar dia inteiro no laboratório sentado em frente ao computador. Ainda me restava uma hora de luz do dia e antes que me desse conta eu já estava dentro do carro dirigindo rumo a uma lagoa que fica na beira de uma rodovia.
Quando cheguei ao meu destino o sol já ameaçava sumir entre as montanhas, foi então que percebi que um grande bando de marrecas-irerê (Dendrogyna viduata) se aproximava ao longe. Antes de pousar na lagoa elas fizeram questão de passar bem em frente ao pôr do sol, dai foi só clicar…


