Umas semanas atrás, publiquei uma notícia sobre uma coleção de pegadas de dinossauros encontradas nos Estados Unidos. O que impressionava da coleção era a quantidade de pegadas reunidas em um só local, o que levou os cientistas chamarem o local de “discoteca de dinossauros”, para o meu horror e o deleite da mídia internacional.
Obviamente, tal notícia chamou a atenção da comunidade de paleontólogos/geólogos, que foi investigar o tal local. De modo mais do que previsível, alguns dos especialistas discordam da conclusão dos geólogos e concluíram que os buracos devem ser mesmo buracos causados pela chuva. A controvérsia em torno do sítio foi tanta, que os cientistas que primeiro divulgaram as pegadas resolveram publicar outro press-release alertando sobre a possibilidade das “pegadas” não serem pegadas.
Este caso é emblemático de duas características da comunidade científica que geralmente passam despercebidas pelos civis:
1) Nenhuma conclusão científica é uma verdade absoluta e cientistas erram. Todas conclusões científicas são interpretações de resultados/observações. Se um grupo de cientistas interpretam um fato de uma forma, um outro grupo de cientistas podem interpretar de outra forma. Mais experimentos/observações podem ser feitas para saber quem está mais errado (provavelmente ambos grupos estão). O bom disso é que a Ciência possui mecanismos de auto-correção, e que são usados freqüentemente.
2) Cientistas são chatos, vaidosos e invejosos. Eles não podem ver um colega ou uma teoria se tornar popular sem tentar destruí-los (no bom sentido, é claro). Isso é importante ao se discutir com que acha que existem garndes conspirações científicas por aí: se um cientista vir uma oportunidade de destruir uma verdade científica, ele o fará imediatamente e com prazer. Seja por ser chato, por desejar fama ou por odiar os detendores da teoria vigente (às vezes é por ser um bom cientista e estar fazendo o seu trabalho). Ou seja: se uma teoria é amplamente aceita é porque, provavelmente, não há evidências suficientes para destruí-la (como a seleção natural, por exemplo).
Lembrem-se disso sempre que alguém vier falando das conspirações para a manutenção do status quo, da evolução, das mudança climáticass e tal.
Eu nem falei do Nobel de Literatura 2008, que saiu ontem. Não é preconceito, é ignorância minha mesmo, que nem sabe o que o cara escreveu.
O prêmio Nobel de Literatura foi para o francês “author of new departures, poetic adventure and sensual ecstasy, explorer of a humanity beyond and below the reigning civilization.” Se nem consigo entender a descrição dada pela Fundação, que o dirá a importância do prêmio…
Já o prêmio Nobel da Paz foi dado a Martti Ahtisaari, mediador de conflitos. Martti foi presidente da Finlândia e agora trabalha como mediador de conflitos internacionais. O trabalho de Martti consiste em reunir as partes em conflito e traçar meios de se terminar os conflitos. Minhas fontes dizem que a Paula está escrevendo um post mais detalhado.
Aproveito a oportunidade de lançar o Presidente Lula como mediador internacional depois de seu mandato. Gostem de suas políticas ou não, o presidente chegou onde chegou por suas habilidades na mediação de conflitos. Eu acho que o Lula demora para tomar decisões importantes talvez mesmo porque ele goste de ouvir muitos lados, porém a função do mediador não é tomar decisões, é orientar a quem as toma a decidir-se por opções que levem à resolução de conflitos e não à sua escalagem.
Acho que seria a aposentadoria perfeita para Lula, ainda mais em um continente que vira-e-mexe decide ficar explosivo. E seria ótimo ver o Lula se tornar um ganhador do Nobel. Conhecimento não se adquire apenas na escola e inteligência não é só a acadêmica.
Há uma especulação de que o Brasil pode ganhar um Nobel de Medicina/Fisiologia amanhã.
Acho que o neurocientista Miguel Nicolelis é um cientista extraordinário e que trouxe avanços que serão importantíssimos para a Medicina dos próximos anos. Também acho que ele tenha chances de ganhar o prêmio…
…mas não amanhã.
Os prêmios Nobéis (?) são geralmente entregues para pesquisas estabelecidos que mudaram o rumo da Ciência. O problema é que a pesquisa do Dr. Nicolelis é relativamente recente (na maioria dos casos, demora-se anos até o reconhecimento) e não chega aos pés de pesquisas como o óxido nítrico, estrutura do DNA ou RNA de interferência, exemplos de premiações “rápidas”. Portanto as chances são de que podemos ganhar um Nobel mas não agora.
Sem contar que dar o prêmio para o Nicolelis agora seria não dar o prêmio para descobertas importantes ainda não agraciadas, como os telômeros, transportes de membranas, sinalização intracelular, o robossomo (!), células-tronco, etc. É uma lista longa de pesquisas importantíssimas! (tem muitas delas citadas no blog Daily Transcript).
Sinceramente, acho que darão o prêmio para as pesquisas com células-tronco, que foram bastante proeminentes neste ano que passou.
O que eu queria mesmo é que o prêmio fosse dado pros inventores do microscópio confocal. Poderiam fazer uma dobradinha boa e dar o Nobel de Química para o inventor das sondas fluorescentes e para os descobridores da GFP. Para explicar o por quê eu precisaria de um mês de posts novos (mas chegamos lá).
Existe uma acusação de plágio no Instituto de Física da USP que aconteceu no ano passado. Descobriu-se que um artigo escrito por um par de professores continha parágrafos inteiros de outros artigos sem menção clara da fonte (alguns artigos foram citados mas não fica clara que o texto foi copiado deles).
Duas foram as desculpas dadas pelos pesquisadores: uma é a de que o artigo foi mandado sem o consentimento do autor e a outra é a de que houve um “erro de referenciamento” e que os trechos plagiados deveriam estar entre aspas. Só que o uso de parágrafos inteiros de outros textos em um artigo próprio na area de biológicas (e, acredito que também seja na área de exatas) é muito incomum para ser considerado apenas uma falha no referenciamento (falha esta que deve ter acontecido múltiplas vezes para se explicar o caso).
Uma nova cópia do artigo foi mandada, cheia de aspas e referências ao texto original. É uma evidência de que houve mesmo o uso impróprio de textos de outros autores.
Misturado a isto há todo um contexto de disputa política no Instituto. Há moções de censura, há acusações descabidas e há relatos de ameaças de dossiês contendo outros casos de plágio.
Adiciona-se uma certa lerdeza na apuração de um caso que pode ser gravíssimo, além da falta de uma divulgação adequada do resultado final e tem-se uma sensação de que a USP está preocupada em proteger a sua imagem, ao invés de tentar apurar a verdade e punir os culpados (de forma exemplar, de preferência). Só se esquece que a imagem que ela deveria ter não é a de “pureza”, como se não pudesse errar, mas sim a de “justa”, que corrige seus erros ao serem detectados.
Eu acredito que casos de plágio devam ser condenados de forma rigorosíssima. Plágio é uma forma de desosnestidade intelectual incompartível com a vida acadêmica.
Uma das conclusões da sindicância é a de que não houve má-fé e, por isso as punições seriam brandas. Não concordo com ela. O artigo foi publicado por pesquisadores sêniores, com cargos importantes na universidade, não foi um pesquisador em seu início de carreira ou um aluno. Mesmo se fosse, plágio ainda é desonesto mas a inexperiência abranda a culpa.
Um segundo ponto: o professor alega que não tinha consciência do artigo. Se assim o fosse, este não seria citado em seu currículo online. Ele foi citado? Se ele não aprovava o conteúdo do artigo e não tinha conhecimento de sua publicação, não seria sua obrigação pedir a retirada de seu nome? Novamente a expressão “desosnestidade intelectual” me vem à cabeça.
Uma das poucas coisas que os cientistas têm na academia que faz valer todo o esforço sem retorno é a credibilidade. Toda esta confusão, a apuração, a impunidade, a desonestidade só abala ainda mais a imagem da universidade, já considerada elitista e corporativista. Talvez esta imagem nem seja tão distante da realidade.
===================================
Abaixo tem um apanhado do que foi publicado sobre o tema. Note o excelente esforço da Folha, em particular o Marcelo Leite, para que todo o processo acontecesse às claras e rapidamente, que culminou em um artigo-desabafo do jornalista.
Empresas que prometem analisar o seu Genoma começam a se popularizar por aí. No blog do Marcelo Leite, li que você pode contratar uma por apenas U$ 399. A empresa te manda um kit para você coletar o próprio DNA (apenas um cotonete metido a besta para você esfregar na bochecha) e mandar para a análise.
A promessa é a de uma análise do seu Genoma. O que a empresa faz é procurar por diversos marcadores moleculares no seu DNA e te devolver um punhado de informações (de que etnias vêm seus genes, as chances de se ter certas doenças, quanto você é aprecido com seus parentes, etc.). Estes marcadores geralmente estão associados à variações nas sequências do DNA encontradas na população. Um exemplo hipotético: um gene XTX pode ter a seqüência AATTCCGG ou ATTTCCGG. A mudança do segundo A para um T pode não alterar nenhuma função no seu corpo mas pode dar dicas sobre o pacote genético que você possui. Possuir a seqüência AATTCCGG pode estar associada à uma descendência asiática, por exemplo. Em outros casos, esta seqüência pode estar associada à doenças, como o câncer de mama.
É importante ressaltar que a presença de um marcador molecular ou outro é apenas um indício de descendência ou um aumento nas chances de se ter uma determinada doença. Não é, de jeito nenhum, uma sentença de morte (você morrerá de câncer no dedinho do pé aos 63 anos e meio). Não é assim que funciona o nosso genoma.
Fazer uma análise Genômica, portanto, não tem nenhuma finalidade prática além de satisfazer suas curiosidades (será que sou parecido com meu irmão? tenho 30% de genes africanos?). É como se fosse um mapa astral moderno.
Provavelmente muitos estão pensando: “Mas é bastante útil saber se tenho altas chances de ter diabetes no futuro”. Concordo. No entanto, existe uma técnica muito mais fácil e barata: basta olhar para a sua família. No meu caso, mais de 90% de meus parentes usam óculos. Não é preciso analisar meu DNA para saber que meus filhos terão altas chances de usá-los também. A mesma coisa funciona para outras doenças: por isso os médicos fazem tanats perguntas sobre seus parentescos e sempre anotam sua etnia. De certa forma, eles estão analisando o seu genoma em busca de marcadores.
No fim eu sei que não adianta brigar. Vejo que a análise do Genoma veio para ficar e deve se popularizar nos próximos anos. Daqui a pouco uma estrela de Hollywood dirá: “Não como açúcar porque meu genoma disse que vou ter diabetes” ou “Me exercito porque vai atrasar o meu Alzheimer”. Alguns anos depois, aparecerão na capa de revistas de comportamento: “Teste para ver se o seu MHC é compartível com o do seu pretê” ou “Nesta semana, os portadores do marcador BZDDE deverão ter cuidados com o estômago. Cuidado: traição à vista.”
Bem-vindos à era do Genoma Astral.
Toda vez que pego um livro novo, sigo o mesmo ritual: antes de começar a lê-lo, abro-o no meio e encho os meus pulmões: adoro cheiro de livro novo, aquele cheiro de possibilidades que me lembra de todos os outros livros que li e das horas de prazer que me proporcionaram.
Ontem ganhei o livro “O cheiro das coisas” (Ed. Vieira & Lent) para escrever uma resenha. O livro tem um cheiro mais-que-novo, pois só será lançado na semana que vem (convite abaixo). A autora é a Dra. Bettina Malnic, uma cientista do Instituto que trabalho que estuda os mecanismos por trás do olfato.
Acho que não valorizamos muito o olfato, no entanto, tente imaginar como conseguimos identificar milhares de cheiros diferentes, lembre-se como é comer com nariz entupido por causa de uma gripe ou note quantas memórias um simples cheiro pode trazer.
Quando cheirei este livro na primeira vez que o abri, moléculas se desgrudaram de suas páginas. As mesmas foram carregadas para dentro do meu nariz e lá identifiquei o seu cheiro. O que me levou a identificar o cheiro e me lembrar dos livros que já li é o tema central do “O cheiro das coisas”.
Os primeiros capítulos do livro passam rápidos. O jeito de escrever da autora, leve e interessante, aliado ao meu interesse no assunto, explicam. Mas é a partir do Capítulo 5 que o livro me conquistou de vez: Bettina dá um toque mais pessoal ao assunto ao descrever um pouco da pesquisa que desenvolveu em seu pós-doutorado em Harvard. É neste momento, assim como um perfume, que mais um tom se revela: passamos a acompanhar como se deu a pesquisa que resultou em importantes descobertas sobre o olfato.
O capítulo 6 é tão emocionante como o anterior: ele começa com uma ligação telefônica no meio da noite e chega em Estocolmo, na entrega do prêmio Nobel de 2006, quando as pesquisas sobre o olfato foram premiadas. A perspectiva da autora é única, e este capítulo apenas vale o preço do livro.
Aos poucos fica claro que o “O cheiro das coisas” não fala somente sobre o olfato mas também sobre a Ciência e como ela é feita. Aos poucos o texto te envolve, mostrando as pesquisas que estão acontecendo agora na área, os grandes mistérios e os resultados que devem ser obtidos nos próximos anos.
Acabo o livro pensando que ele deveria ser reescrito todos os anos: sempre acrescentando-se as novas descobertas, as novas teorias e as surpresas. Esse é um de seus méritos. É um livro sobre o olfato que deixa um gostinho de quero mais.
Não se esqueçam de ir ao lançamento! Dia 17 de Setembro, 19hs, na livraria Cultura do Villa Lobos (Sampa).
Esta pergunta tem gerado muita discussão na blogosfera científica escrita em inglês. Tudo começou com um post do Science After Sunclipse no qual Blake Stacy afirma que os blogs de Ciência não ensinam Ciências.
O problema, segundo Blake, é que os blogs de Ciência não se preocupam em escrever sobre conceitos básicos de Ciência. O autor ainda ressalta, com uma brincadeira de fundo muito verdadeiro, que os blogs de Ciência discutem assuntos que somente interessam cientistas como: coisas engraçadas porém não científicas, reações contra criacionistas e pseudo-cientistas, reações contra o modo que a Ciência é tratada em outras mídias e notícias sobre artigos recém-publicados ao invés de se focar no ensino de Ciências. A razões para tais tendências é a busca de assuntos populares e que estão na mídia, ao invés de escrever sobre assuntos quaisquer que tragam a luz da Ciência para a população.
O post nas quais estas idéias são expostas é gigantesco mas cheio de comida para o cérebro. Eu o li pela primeira vez faz alguns dias e ainda não consigo parar de pensar nestas idéias: será que nós, como blogueiros de Ciências, deveríamos nos dedicar mais a informações básicas? Seria útil escrevermos sobre o que é seleção natural, fotossíntese, eletricidade ou rochas magmáticas? É esta a nossa função?
Todos estes questionamentos confluíram com o tema da Roda de Ciência deste mês: a Blogosfera Científica em Português.
Por causa de um projeto que venho desenvolvendo, acabei me tornando uma espécie de especialista em blogs de Ciência brasileiros e portugueses. Não chegamos aos pés da blogosfera escrita em inglês, tanto em quantidade quanto em qualidade. Ainda temos problemas com frequência de posts, número de visitações e integarção com o resto da blogosfera. É claro que ótimas iniciativas como o Anel de Blogs de Ciência são um incentivo para a comunidade, mas falta-nos relevância, ainda mais se tomarmos como exemplo blogs como o Pharyngula, cujas opiniões são publicadas em jornais renomados, como o New York Times.
Juntando as pontas, talvez o papel da blogosfera científica brasileira não seja a busca da relevância ou magnitude dos blogs de língua inglesa. Talvez nós devêssemos buscar um outro caminho, mais adequado à nossa realidade. Quem sabe, ao invés de blogar sobre o genoma do ornitorrinco, deveríamos blogar sobre a diversidade de mamíferos. Ao invés de escrever sobre a sonda que está em Marte, deveríamos escrever sobre Marte! Talvez seja este o nosso papel atual: trazer assuntos mais básicos sobre Ciência para nossos leitores, assuntos que ainda não possuem bons textos em português na Internet. Textos básicos e acessíveis sobre Ciência ainda são raros na Internet brasileira e este é um nicho que deveríamos pensar em ocupar.


