No ano passado, enquanto escrevia a minha tese, eu fiquei viciado em podcasts. Nada melhor que ficar escutando pessoas falarem do assutno de seu interesse quando você tiver vontade. Para quem nunca ouviu falar, um podcast é um programa de rádio gravado em mp3 para você escutar quando quiser. O mais leal é que qualquer um, a princípio, pode gravar e lançar um podcast, o que amplia enormemente a diversidade de assuntos e opiniões que você consegue encontrar.

Foi no meio desta minha febre por podcasts que descobri que o Jonny Ken, velho amigo da Biologia, junto com a Amanda e a Dani Toste haviam acabado de lançar um: o Decodificando, um podcast que versa sobre o “código genético, jurídico e código fonte”. A emoção foi forte: ouvir um podcast com uma voz conhecida após anos em terras estrangeiras me tornou um dos primeiros fãs do trio de podcasters.

Pois eis que, 11 podcasts depois, eu faço uma pequena ponta no Decodificando! O Jonny quis me entrevistar sobre a pós-graduação na Inglaterra e eu fui lá dar meu pitaco, via celular. Portanto, se você quiser saber como é a minha voz, vá até os 58 minutos de show. Eu sou a voz que parece de uma criança. Mas ouçam o resto que vale mais a pena!

Os ingleses são um povo incrível, conseguindo atingir graus altíssimos de civilização sem perder a hora do chá!

Um amigo meu que ainda mora na Cambridge inglesa, recebeu este e-mail (traduzido por mim) em sua caixa de mensagens:

A temperatura finalmente está subindo (nota do editor: é começo de primavera lá) portanto sapos e salamandras estão se movimentando novamente e tentando cruzar a trilha que vai para Coton a fim de chegar aos laguinhos. Infelizmente, eles frequentemente param no meio da trilha, especialmente à noite, quando fica frio. Se você estiver pedalando pela trilha de noite, por favor preste atenção nos sapos e salamandras e ajudem-nos a atravessá-la.

Obrigada,
M.

Legal, não?

Este post faz parte da primeira edição do blog carnival “Mundo de Cidades”, proposto pela Lucia Malla e hospedado no Goitacá.

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Para quem gosta de Ciências e vai visitar a Inglaterra (ainda mais na primavera) fica a dica: vá para Cambridge, que fica a menos de uma hora de trem saindo Londres.

Cambridge é uma cidadezinha pequena, tem menos de 150 mil habitantes. A Universidade é a vida da cidade. Minha impressão pessoal é que Cambridge é uma cidade cenográfica: muitos lugares bonitos e fotogênicos para se olhar, várias atrações (ainda mais se você curte Ciência) e a impressão de que ninguém que está na rua mora na cidade. Por estas razões, eu sempre chamo Cambridge de Disneylândia da Ciência.

A atração principal desta Disney é o rio. Se o dia estiver bom, alugue um barquinho para navegá-lo e admirar as belas pontes do rio Cam (Cam´s Bridges, sacou?). Os locais chamam os barquinhos de punts e, para impulsioná-los, usa-se uma vara para empurrar o fundo do rio. É possível alugar um guia para saber as curiosidades do rio mas dirigir um punt sozinho é uma experiência fantástica.

O rio ainda passa pelos jardins dos Colleges de Cambridge. Para entender o que são Colleges é preciso ter lido Harry Potter. Em Harry Potter, todos eram alunos de Hogwarts mas era da casas Grifinória e se especializou em Defesa contra as Artes das Trevas. Exemplificando: eu era aluno da Cambridge University, do Churchill College e do Departamento de Ciências das Plantas (o paralelo óbvio seria: Tonks, Hogwarts, Lufa-Lufa e Herbologia). Os Colleges mais famosos de Cambridge são o Trinity College, o King´s College e o Saint John´s College e são os jardins destes que você consegue ver do seu barco.

Mas o que mais me excitava em Cambridge era o senso de história, principalmente o de história científica. Alguns pontos altos:

- Dizem que o seu mercado central é um dos mais antigos da Europa e era frequentado até por vikings!

- Newton foi estudante do Trinity College e calculou a velocidade do som em um dos corredores no qual nós andávamos.

- Darwin fingiu que estudava em Cambridge e conheceu lá seu mentor, Henslow (um dia conto esta história). Algumas coletas de Darwin, aliás, podiam ser encontradas no meu próprio departamento!

- Um dos pubs, o The Eagle, possuía assinaturas dos pilotos americanos e ingleses que lutaram na Segunda Guerra Mundial.

- Este mesmo pub foi frequentado por Watson e Crick que, no dia no qual deduziram a estrutura do DNA, entraram no pub exclamando: “Descobrimos o segredo da vida!”.

- Em um quarteirão perto de onde eu trabalhava, foi inventado o motor a jato, descoberto o nêutron e o elétron, foi deduzida a estrutura da hemoglobina e a do DNA!

E tudo isso em uma cidadezinha mínima onde todos andam de bicicletas e grande parte da população é feita de cientistas (vc pode esbarrar no Stephen Hawkin ou jantar com um Nobel e isso nem vai ser tão especial assim) que vivem andando pelas ruas de black-tie para frequentar jantares formais!

E não se esqueça de comprar uma lembrancinha na Gift Shop!

No meu primeiro ano eu morei em uma casa com mais 13 pessoas (a casa, a propósito, havia sido do famoso estatístico/evolucionista Ronald Fisher). O engraçado é que eu mal encontrava as outras pessoas da casa pois ela era muito grande e ninguém cozinhava (ou tomava banho, eu acho). Neste período fiz dois amigos: um luso-suíço chamado Phillipe e um russo chamado Alex, duas figuraças. Phillipe era um veteranossauro e parecia estar na universidade fazia tempos. Ele era um desses caras com opiniões fortes e um tanto maluco (no sentido de psicopata mesmo). Ele tinha uma barba enorme e só usava calças marrons e suas duas camisas de flanela que o faziam parecer um lenhador (”Os suíços que sabem fazer roupas! Eu comprei estas camisas faz cinco anos e ainda me servem!”).

Uma das suas histórias mais famosas aconteceu no refeitório. Nós estávamos jantando quando chegou um americano, desses de filmes teens de Hollywood. Ele sentou-se ao nosso lado e serviu-se de água, esvaziando a jarra de água. Phillipe, com seu jeito meio rude, disse:

“Aqui na Inglaterra a gente tem o costume de encher o jarro de água após esvaziá-lo.”

O americado nem tchuns e ignorou o Phillipe, que se levantou bruscamente e foi encher o jarro no bebedouro. Quando o Phillipe voltou, batendo as suas botas de caminhada no piso de madeira do refeitório, ele serviu todo mundo de água, encheu o seu copo e esvaziou o resto na cabeça do americano!!! Foi demais! Não precisa dizer que a coisa desandou depois… mas tudo bem, “O Phillipe é assim mesmo”.

Um tempo atrás eu me envolvi em uma discussão sobre o Harry Potter e a existência de um gene da magia. A polêmica girou em torno de um grupo de cientistas que queria usar Harry Potter para ensinar genética. O problema foi que eles argumentavam que as evidências apontavam para a existência de um gene para a Magia, o que eu e meus colegas não acreditamos.

Enfim, uma das conseqüências da existência de um gene da Magia é o preconceito com os humanos que não o possuem. De fato, muitas famílias tradicionais de magos se consideram “puro-sangue” e são contra o casamento com trouxas, pois isso “contamina o sangue” dos magos e diminui o seu poder. Inclusive no último livro vemos algumas das conseqüências da tomada do poder por magos racistas. Algumas das medidas incluíam a perseguição e enclausuramento de magos mestiços. E isso não é exclusividade da ficção, já existiram muitos cientistas famosos que foram a favor da seleção por caracteres “desejáveis”, como a inteligência (James Watson?).

Esse é só um exemplo de como conceitos científicos mal-entendidos podem ter conseqüências sociais graves. Eu acredito piamente que os defensores da eugenia não entendem nada de Genética. Primeiro porque selecionar casais pela inteligência (ou pelos genes) leva à diminuição da variabilidade genética. Depois que esta seleção pode levar ao acúmulo de alelos defeituosos (aumento da carga genética). Quem tem cão de raça sabe os problemas genéticos resultantes da intensa seleção. Por último, a inteligência depende tanto da carga genética quanto do ambiente. Basicamente, quanto mais iguais as pessoas são geneticamente, mais o ambiente tem um papel para explicar as diferenças de inteligência e, quanto mais o ambiente for igual, mais os genes têm um papel para explicar as diferenças na inteligência. Dessa forma, os defensores da eugenia acabariam caindo do cavalo, pois não haveria mais o que selecionar.

Voltando ao Harry Potter, os magos que acreditam em raças puro-sangue iriam cair da vassoura se soubessem que, na verdade, o que determina os dons mágicos das pessoas é a quantidade de leite de vacas mágicas que suas crianças bebem. A magia, portanto é determinada pelo ambiente e nada tem a ver com os genes (as vacas mágicas, no entanto, são determidadas geneticamente e selecionadas por elfos-domésticos). Viagem? leia mais aqui.