Umas semanas atrás, publiquei uma notícia sobre uma coleção de pegadas de dinossauros encontradas nos Estados Unidos. O que impressionava da coleção era a quantidade de pegadas reunidas em um só local, o que levou os cientistas chamarem o local de “discoteca de dinossauros”, para o meu horror e o deleite da mídia internacional.

Obviamente, tal notícia chamou a atenção da comunidade de paleontólogos/geólogos, que foi investigar o tal local. De modo mais do que previsível, alguns dos especialistas discordam da conclusão dos geólogos e concluíram que os buracos devem ser mesmo buracos causados pela chuva. A controvérsia em torno do sítio foi tanta, que os cientistas que primeiro divulgaram as pegadas resolveram publicar outro press-release alertando sobre a possibilidade das “pegadas” não serem pegadas.

Este caso é emblemático de duas características da comunidade científica que geralmente passam despercebidas pelos civis:

1) Nenhuma conclusão científica é uma verdade absoluta e cientistas erram. Todas conclusões científicas são interpretações de resultados/observações. Se um grupo de cientistas interpretam um fato de uma forma, um outro grupo de cientistas podem interpretar de outra forma. Mais experimentos/observações podem ser feitas para saber quem está mais errado (provavelmente ambos grupos estão). O bom disso é que a Ciência possui mecanismos de auto-correção, e que são usados freqüentemente.

2) Cientistas são chatos, vaidosos e invejosos. Eles não podem ver um colega ou uma teoria se tornar popular sem tentar destruí-los (no bom sentido, é claro). Isso é importante ao se discutir com que acha que existem garndes conspirações científicas por aí: se um cientista vir uma oportunidade de destruir uma verdade científica, ele o fará imediatamente e com prazer. Seja por ser chato, por desejar fama ou por odiar os detendores da teoria vigente (às vezes é por ser um bom cientista e estar fazendo o seu trabalho). Ou seja: se uma teoria é amplamente aceita é porque, provavelmente, não há evidências suficientes para destruí-la (como a seleção natural, por exemplo).

Lembrem-se disso sempre que alguém vier falando das conspirações para a manutenção do status quo, da evolução, das mudança climáticass e tal.

Buracos causados pela chuva?

Buracos causados pela chuva?

Quando eu fazia caminhadas por esse Brasil afora, era muito emocionante se deparar com um pedaço de terra com pegadas de animais. Às vezes identificávamos veados, antas, lobos-guarás e muitos outros grandes animais somente olhando suas impressões. Imaginem agora a emoção de se deparar com pegadas feitas milhões de anos atrás?

É o que devem ter sentido os geólogos Marjorie Chan e Winston Seiler ao perceber que os buracos no chão presentes em uma plataforma rochosa não eram feitos pela chuva mas sim por dinossauros que cruzavam dunas arenosas mais de 190 milhões de anos atrás, no começo do período Jurássico.

O que fazia muitas pessoas pensar que os buracos eram formados pela chuva é a sua densidade e quantidade, incomuns para serem pegadas fossilizadas. No entanto, os geólogos notaram que os buracos só apareciam naquele plano rochoso e não nos arredores. Uma análise mais de perto revelou marcas de dedos e que se repetiam de forma regular.

Não parece um buraco feito pela chuva...

Não parece um buraco feito pela chuva...

Winston Seiler estimou que há cerca de 12 pegadas por metro quadrado, totalizando milhares de impressões na rocha! Acredita-se que as pegadas foram feitas em um oásis no meio de um deserto maior do que o Saara, que existia na região de Utah (EUA), o que explicaria a quantidade de pegadas no local. As impressões fossilizadas teriam sido feitas em areia molhada e preservadas até hoje. Além das pegadas, existem marcas de caudas no chão, algo incomum de se encontrar uma vez que dinossauros não arrastavam suas caudas pelo chão.

Winston identificou pelo menos quatro tipos diferentes de pegadas: animais bípedes grandes, como os T-Rex; animais bípedes pequenos; dinossauros com menos de um metro de altura e saurópodes, os meus prediletos, como os Brontossauros.

Análises posteriores poderão revelar algo sobre o comportamento destes animai. É possível estimar o tamanho dos dinossauros pelo tamanho das pegadas, o seu peso, pela profundidade, a direção que os animais percorriam e até a sua velocidade. É assim que acabamos descobrindo muitas coisas sobre estes bizarros animais, que deixaram uma calçada da fama disfarçados de buracos feitos pela chuva.

Imagens e fonte: EurekAlert!

Dica do Luiz Bento, do excelente Discutindo Ecologia.

9 razões para não namorar um tiranossauro. Hilário!