Um dos acontecimentos biológicos que mais impressionam pela destruição que provoca é uma nuvem de gafanhotos. Em novembro deste ano, uma nuvem de gafanhotos na Austrália chegou a medir 6 quilômetros de comprimento e 170 metros de altura! São zilhões e zilhões de criaturas famintas devorando tudo o que veem pela frente! O mais interessante é que gafanhotos geralmente vivem sozinhos e não em grupos. Só que algo acontece de tempos e tempos que provoca este frenesi bíblico.

O que será que engatilharia uma nuvem de gafanhoto? Uma possível explicação está na combinação de grande densidade populacional com condições climáticas favoráveis e a abundância de alimento local, que provoca a mudança de comportamento nestes insetos. O gafanhoto do deserto (Schistocerca gregaria), por exemplo, somente a repetição de um estímulo mecânico em uma região das pernas traseira é o suficiente para iniciar a transição entre a forma solitária para a forma “Comiiiiiiidaaaaaaa” (calma Abel!). Além do toque, estímulos visuais e químicos ajudam nesta transição. O que impressiona nos gafanhotos do deserto é a mudança no seu comportamento vem acompanhada de mudanças morfológicas extremas.

Um estudo publicado nesta semana na Science, mostra de forma elegante que os pacatos gafanhotos solitários começam a se transformar em máquinas de destruição apenas duas horas após detectarem um aumento na densidade populacional. O mais interessante é que os cientistas conseguiram descobrir um dos principais sinais internos para a transformação se iniciar: a serotonina, um neurotransmissor que também provoca alterações comportamentais em seres humanos. Mudanças na produção, percepção ou destruição da serotonina produzida nos nossos cérebros explicam disordens como comportamentos obsessivo-compulsivos, depressão, excesso de agressividade e ansiedade.

Esta descoberta, além de ser cientificamente interessante, pode levar a novas tecnologias no combate à destruição causada por torcidas organizadas nuvens de gafanhotos, pragas que já levaram diversos países à crises de falta de alimento.

M. L. Anstey, S. M. Rogers, S. R. Ott, M. Burrows, S. J. Simpson (2009). Serotonin Mediates Behavioral Gregarization Underlying Swarm Formation in Desert Locusts Science, 323 (5914), 627-630 DOI: 10.1126/science.1165939

Fotos: crabchick (Flickr) e Science

A metáfora da árvore da vida pode não ser rigorosamente correta mas ela é ótima para entender a evolução dos organismos multicelulares. É simples: assumindo que todos os animais possuem parentes em comum, é possível comparar as diferenças entre eles e descobrir quem tem o parente mais próximo de quem e tentar descobrir como este capítulo da história da vida se desenvolveu.

Sempre achamos que as esponjas estão na base da árvore da vida pois são os organismos considerados animais mais simples que conhecemos. No entanto, no começo do ano passado, falei sobre um trabalho que colocava os ctenóforos na base da árvore dos animais. Isso significava que os ctenóforos eram uma linhagem independente do resto dos animais, inclusive as esponjas.

Agora, um estudo recente, que usa uma combinação de seqüências de genes e morfologia para montar a árvore, sugere que árvore  dos animais teria se separado logo no começo em duas linhagens: uma contendo os protostômios (moluscos, artrópodes, etc.) e os deuterostômios (cordados, equinodermos, etc.) e outra linahgem contendo os grupos Cnidaria, Ctenophora, Porifera e Placozoa.

Três coisas são interessantes: 1) em contraste com o estudo que comentei, os ctenóforos aparecem como grupo-irmão dos cnidários, algo muito mais intuitivo; 2) novamente as esponjas não aparecem na base da árvore! Na base da linhagem que inclui as esponjas estão os Placozoa. Mais importante: 3) a árvore sugere que as céluals nervosas surgiram duas vezes na história dos animais (!!!) OU houve uma notável regressão do sistema nervoso nas esponjas e Placozoa, ambas hipóteses excitantes. Curiosamente, Placozoa possuem todos os genes necessários para se fazer células nervosas, mas não o fazem!

É claro que você deve estar pensando: “é óbvio que esta árvore está errada”. No entanto, esta árvore é a conclusão que melhor explcia o conjunto de dados que possuimos. Árvores como esta são propostas não por serem A MAIS corretas mas sim para podermos descobrir, em seus erros, o que precisamos descobrir. Já sabemos, por exemplo, que devemos olhar mais atentamente para o sistema nervoso de cnidários para ver se eles realmente evoluíram independentemente do sistema nervoso dos organismos bilaterais.

Concatenated analysis sheds light on early metazoan evolution and fuels a modern ”Urmetazoon” hypothesis. Schierwater B, Eitel M, Jakob W, Osigus H-J, Hadrys H, et al. (2009)
PLoS Biol 7(1): e1000020. doi:10.1371/journal.pbio.1000020

Fontes: PLOS, Science Daily

É possível comprar qualquer coisa na Amazon, inclusive minério de Urânio (tudo dentro da lei)!!! O melhor são as resenhar dos usuários. Algumas pérolas:

“(…) usei o urânio acidentalmente para escovar os dentes e Uau! Só digo isso: meus dentes nunca estiveram tão limpos! Eles brilham, eles formigam e, por alguma razão, eles CONTINUAM limpos. Altamente recomendável!”

“Toda vez que eu tento usar este produto, os Libaneses aparecem e roubam o meu deLorean”

“Eu tive problemas de achar Nintendo Wii e Urânio para meus filhos neste Natal. Eu sugiro que os fabricantes aumentassem a produção para as festas pois poucos de nós temos tempo para ficar altas hoas na fila do Best Buy ou fazer acordos com os chineses.”

“(…) imagina a nossa surpresa quando recebemos o Urânio no laboratório descobrimos que ele não era ENRIQUECIDO. Certo, o produto é ótimo para pregar peças mas se você precisa de fazer plutônio de alta qualidade, procure outras alternativas. (…)”

“Eu comprei este item e o misturei nas loções da minha esposa, tentando sacar o seu seguro de vida. Nosso casamento não ia muito bem, para não falar muito. Inesperadamente, surgiram mais um par de seios nela! Nunca estive mais feliz. Este produto salvou meu casamento.”

É interessante a forma na qual cada governo vai lidar com a crise. Aparentemente, o governo americano vai liberar mais 3 billões de dólares para o NSF (National Science Foundation) e 2 bilhões de dólares para o NIH neste ano, efetivamente dobrando o seu orçamento. O NSF e o NIH são as principais fontes públicas de financiamento de pesquisas nos EUA e a injeção de capital faz parte do pacote de estímulo da economia!!!

Parte do pacote deve ser gasto nos próximos 6 meses na melhoria da infraestrutura dedicada à pesquisa. Lá eles entendem que Ciência e desenvolvimento econômico andam de mãos dadas. Aqui cortamos 18% do orçamento dedicado à Ciência para financiar pacotes de ajuda econômica, além de pagar associações espíritas para afastar as chuvas!!!!

Acabei de saber que este blog ganhou os prêmios do público e do júri na categoria de Ciências do Best Blog Brazil 2008.

São muitos os agradecimentos. Um blog não é feito somente do autor, ele pertence à toda a comunidade construída à sua volta. Comunidade que ficou muito mais rica e recompensadora após o lançamento do Lablogatórios.

O meu objetivo agora vai ser perder o próximo prêmio. Não me entendam mal, espero blogar mais e melhor sobre Ciências neste ano mas também espero ajudar a aumentar a concorrência em quantidade e qualidade. Nada mais gratificante será se, ano que vem, eu perder o prêmio para um blog melhor que o meu.

Porque antes de ser um autor, sou um leitor de blogs.

PS: é claro que não posso deixar de mandar um beijo especial para a Paula, que ganhou o prêmio do júri na categoria Educação.

A proposta orçamentária apresentada pelo senador Delcídio Amaral (PT-MS) neste ano apresentou uma surpresa mega-desagradável: um corte de 18% na verba do Ministério da Ciência e Tecnologia (MCT): 18%!!!!!!!!!!!

Alguém conte para o senador que Inovação Tecnológica é o biocombustível de nações em desenvolvimento? E que, sem investimentos em Ciência básica não há Tecnologia. Sem os dois seremos uma nação agrária para sempre! Teremos que importar tecnologia para poder crescer, sempre dependendo do que já é ultrapassado lá fora. Pagamos caro por isso! Aposto que muito mais do que o corte no orçamento.

E é claro: se o orçamento de Ciência é o primeiro a ser afetado em tempos de crise, o orçamento de bolsas de estudo é o primeio a ser afetado em tempos de cortes de verba…

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