Bichinhos comem plantas, bichos maiores comem bichinhos. Todos já ouvimos esta historinha quando estávamos na escola. O que não nos contam é que esta história é muito mais complexa do que isso e envolve inúmeros estratagemas que permitem os personagens desta história subverterem o enredo.
Um dos grandes predadores de plantas é um pequenino ácaro (muitas vezes vermelho), chamado ácaro-aranha. Quando este ácaro ataca as folhas das plantas, estas liberam sinais no ar que fazem com que outras planats comecem a se preparar contra o ataque destes predadores. Mais interessante: estes cheiros são reconhecidos por animais que se alimentam destes aracnídeos. Assim, quando os ácaros-aranhas atacam uma planta, aumentam as chances de seus predadores encontrá-los.
Uma pesquisa recente revelou mais um capítulo desta história: quando os ácaros-aranha viram comida, eles também liberam um cheiro no ar. Este cheiro faz com que os demais ácaros-aranha entrem em um estado de dormência. Este estado de dormência protege os ácaros contra os predadores, além de fazer com que o cheiro de planta morta diminua, afastando o predador.
Acreditava-se que estado de dormência somente era usado para proteger os ácaros contra a falta de água. Estes animais, particularmente sensíveis à falta de água, entram em dormência antes de deixar as folhas que habitam: desta forma, eles se protegem até acabarem caindo em uma folha nova. Agora sabemos que este estado também é ativado pelo cheiro de ácaros sendo comidos.
Não deve demorar até alguém fazer um anti-ácaro baseado neste cheiro…
Fonte: New Scientist, Naturwissenschaften
Como indicado em um post anterior, abelhas sabem contar até quatro. Mais fascinante que o fato de almaque é todo o processo utilizados pelos pesquisadores para chegar a esta conclusão.
A pesquisa, realizada na Austrália, utilizou abelhas comuns (Apis mellifera) para tentar responder a seguinte pergunta: insetos sabem contar? A pergunta é bastante simples, porém obter uma resposta aceitável já é mais difícil. Como descobrir isso?
Os pesquisadores, para responder esta questão, construíram um tubo com várias marcas amarelas (abaixo). As abelhas eram liberadas uma a uma e recebiam um prêmio, na forma de comida, após passar uma das marcas. O treino durava de três a cinco dias. Após este período de treino, as abelhas eram liberadas dentro do tubo, só que sem nenhum prêmio e os locais nos quais as abelhas investigavam à procura da comida eram anotados.
O resultado não poderia ser mais elegante: quando o prêmio ficava na primeira marca, as abelhas procuravam-no na região da primeira marca (abaixo, letra a). O mesmo acontece na segunda e na terceira marca (letras b e c, abaixo) e, em menor intensidade, na quarta marca (letra d, abaixo). Já, quando o prêmio era posto na quinta marca (letar e, abaixo), as abelhas já não exibiam uma preferência clara por uma marca: elas procuravam a comida em todas as marcas. Isso fez os pesquisadores concluírem que as abelhas contam, mas somente até quatro (e olhe lá).
Para eliminar a possibilidade das abelhas decorarem a distância entre a entrada do tubo e o prêmio ao invés de contar as marcas, os pesquisadores variavam a distância das marcas de um dia para o outro, obtendo resultados semelhantes; e os pesquisadores ainda mudaram os formatos das marcas entre o treino e o teste (de faixas para círculos), sem alteração no resultado inicial.
Este estudo não vai mudar o modo no qual vemos as coisas ou entendemos as abelhas. No entanto, achei-o belíssimo ao buscar uma resposta simples para uma pergunta difícil, além de conseguir eliminar outras possíveis explicações para o fenômeno.
Fonte: Dacke M, Srinivasan MV. (2008) Evidence for counting in insects. Anim Cogn. 2008 Oct;11(4):683-9.
Consegui um papel de parede de ornitorrinco muito bonito! Fica a dica: na National Geographic, quase todas as fotos podem ser transformadas em papel de parede.
Acabei de descobrir que abelhas sabem contar (até 4, aparentemente). Fiquei muito empolgado com esta novidade e devo escrever como chegou-se à esta conclusão amanhã. Fica aqui meu primeiro trailer de post.
Um grupo de 100 jovens entre 16 a 18 anos se encontrou em Veneza para o ‘100 parole per la scienza‘, onde eles foram convocados a escolher 100 palavras que, na opinião deles, representam fatores e conceitos que influenciam as tendências científicas nos dias de hoje.As palavras escolhidas foram, em ordem alfabética: ácido/base, ambiente, análise, antimatéria, aparato, atmosfera, átomo, bactéria, Big Bang, biodiversidade, bioética, biosfera, buraco negro, carbono, calor, caos, célula, céula-tronco, ciência, clima, clonagem, DNA, ecossistema, efeito estufa, eletricidade, elétron, elemento, energia, entropia, enzima, equilíbrio, erro, espaço, espécie, estado de agregação, etologia, estrela, evolução, experimento, força, fóssil, fotossíntese, galáxia, gene, gravidade, H2O, hidrocarbonetos, infinito, inteligência, Internet, lei, link, luz, magnetismo, massa, medida, mente, metabolismo, método científico, mole, molécula, movimento, mutação, nebulosa, neurônio, onda, organismo, organismo geneticamente modificado, osmose, partícula, pesquisa, pH, planeta, poluição, pressão, probabilidade, proteína, pulsar, quantum, quark, radioatividade, reação, relatividade, reprodução, seleção natural, simbiose, sistemas, solução, tabela periódica, tecido, tecnologia, temperatura, tempo, teoria, tumor, Universo, vácuo, vida, vírus.
Este simples exercício mostra o que passa pela cabeça destes jovens italianos quando falamos de Ciência. É importante ter isso em mente ao se dirigir a este público. Palavras associadas à dilemas éticos da tecnologia aparecem bastante (células-tronco, trangênicos, poluição, etc.), assim como palavras associadas ao currículo escolar (evolução, pH, tabela periódica, etc.).
Seria interessante fazer algo no Brasil (talvez com um universo maior de palavras) e também repetir este exercício a cada 4 ou 5 anos.
Fonte: Nature
Wordcloud do Brontossauros feito usando o Wordle.
Postei mais um artigo lá no Raio-X, o nosso blog de bastidores, é sobre o sistema re-CAPTCHA que nossos blogs usam para evitar SPAM nos comentários.
Empresas que prometem analisar o seu Genoma começam a se popularizar por aí. No blog do Marcelo Leite, li que você pode contratar uma por apenas U$ 399. A empresa te manda um kit para você coletar o próprio DNA (apenas um cotonete metido a besta para você esfregar na bochecha) e mandar para a análise.
A promessa é a de uma análise do seu Genoma. O que a empresa faz é procurar por diversos marcadores moleculares no seu DNA e te devolver um punhado de informações (de que etnias vêm seus genes, as chances de se ter certas doenças, quanto você é aprecido com seus parentes, etc.). Estes marcadores geralmente estão associados à variações nas sequências do DNA encontradas na população. Um exemplo hipotético: um gene XTX pode ter a seqüência AATTCCGG ou ATTTCCGG. A mudança do segundo A para um T pode não alterar nenhuma função no seu corpo mas pode dar dicas sobre o pacote genético que você possui. Possuir a seqüência AATTCCGG pode estar associada à uma descendência asiática, por exemplo. Em outros casos, esta seqüência pode estar associada à doenças, como o câncer de mama.
É importante ressaltar que a presença de um marcador molecular ou outro é apenas um indício de descendência ou um aumento nas chances de se ter uma determinada doença. Não é, de jeito nenhum, uma sentença de morte (você morrerá de câncer no dedinho do pé aos 63 anos e meio). Não é assim que funciona o nosso genoma.
Fazer uma análise Genômica, portanto, não tem nenhuma finalidade prática além de satisfazer suas curiosidades (será que sou parecido com meu irmão? tenho 30% de genes africanos?). É como se fosse um mapa astral moderno.
Provavelmente muitos estão pensando: “Mas é bastante útil saber se tenho altas chances de ter diabetes no futuro”. Concordo. No entanto, existe uma técnica muito mais fácil e barata: basta olhar para a sua família. No meu caso, mais de 90% de meus parentes usam óculos. Não é preciso analisar meu DNA para saber que meus filhos terão altas chances de usá-los também. A mesma coisa funciona para outras doenças: por isso os médicos fazem tanats perguntas sobre seus parentescos e sempre anotam sua etnia. De certa forma, eles estão analisando o seu genoma em busca de marcadores.
No fim eu sei que não adianta brigar. Vejo que a análise do Genoma veio para ficar e deve se popularizar nos próximos anos. Daqui a pouco uma estrela de Hollywood dirá: “Não como açúcar porque meu genoma disse que vou ter diabetes” ou “Me exercito porque vai atrasar o meu Alzheimer”. Alguns anos depois, aparecerão na capa de revistas de comportamento: “Teste para ver se o seu MHC é compartível com o do seu pretê” ou “Nesta semana, os portadores do marcador BZDDE deverão ter cuidados com o estômago. Cuidado: traição à vista.”
Bem-vindos à era do Genoma Astral.





