Para um biólogo é difícil definir o que é Vida. No entanto, para um biólogo, é fácil separar o que é vivo do que não é vivo (esqueçam os vírus, por enquanto). O mais incrível entre os seres vivos é a diversidade da vida e a escala na qual ela existe: neste planeta onde é possível existir vida, Vida há.

É difícil compreender o verdadeiro poder da afirmação acima. Imagine uma árvore no meio de São Paulo. Esta árvore abriga uma miríade de seres vivos visíveis e invisíveis, conhecidos e desconhecidos por nós. Estou falando de plantas menores, insetos e aracnídeos, fungos e bactérias mil. Para cada planta que vive nesta árvore, pode existir um parasita desta planta, vermes por exemplo. Para cada verme parasita pode haver uma bactéria que vive no seu intestino. E para cada bactéria intestinal, pode haver um vírus que a infecta. E isso acontece em cada organismo na árvore, em cada árvore da cidade e do resto do planeta.

Essa imperativa da Vida, cresça onde der, fica mais clara nos extremos: existem bactérias que vivem entre pedras, em águas que chegam a 120 graus Celsius, em gelo, doses de radiações altíssimas ou quantidades imensas de metais pesados. Há vida, quem sabe, até viajando pelo espaço.

Todo este espanto, no entanto, começou por causa de uma notícia relativamente trivial: exitem quatro espécies de moscas-de-frutas que vivem toda ou parte de sua vida em um caranguejo que só existe nas ilhas Cayman. Estas moscas se alimentam de bactérias que vivem no corpo destes caranguejos. Foto abaixo:

Não é maravilhoso que a diversidade da Vida inclua moscas que se alimentem de bactérias que vivem em caranguejos que vivem nas ilhas Cayman? Me faz acreditar que vivemos em um mundo muito mais impressionante do que qualquer ficção.

Viva a Vida! Viva a diversidade!

Saiu um texto interessante na Nature desta semana. O autor é Jon Yearsley, um pós-doc sênior da Suíça. Tradução minha:

“As larvas de libélulas literalmente possuem prazos para expirar, e isso as estressa. Quando as noites ficam mais próximas e o inverno se aproxima, as larvas que sobram nas lagoas tentam completar o seu ciclo de vida. Elas aceitam riscos altos: se alimentando diante de predadores, mobilizando reservas de gorduras e diminuindo sua resposta imune. Ao passo que as suas validades se aproximam, o balanço entre custos e benefícios mudam, e riscos maiores ficam mais atrativos.

Estas imagens não saíam da minha cabeça enquanto eu tomava um café no sábado passado. Meu colega Thomas havia acabado de me mandar um email com uma carta sobre o nosso último artigo que dizia claramente a palavra “rejeitado”. foi deprimente. Mesmo acostumado com os altos e baixos da vida acadêmica, eu ainda acho difícil engolir estas cartas de rejeição.

Assim como as larvas, eu vejo meu próprio prazo se aproximando e o balanço entre custos e benefícios mudando. Sim, eu sou suspeito, mas o artigo merece ser publicado em uma boa revista. Mesmo assim, estou procurando empregos e uma publicação rápida e garantia tem suas vantagens. Se eu tivesse mais tempo, eu ainda seria realista mas pensaria mais alto. Se eu fosse uma libélula, eu pensaria ainda mais alto, aceitando riscos ainda maiores. Ou eu posso ser mais modesto e garantir uma publicação rápida. Eu preciso encontrar a estratégia ideal para completar o meu ciclo de vida. Afinal, é um apetite insaciável por artigos que geralmente permitem que pós-docs se metamorfoseiem em professores contratados.”

A cada semana que passa sinto o meu ciclo de vida ne Ciência chegar ao fim, transformarei-me em um professor contratado ou morrerei nas garras de um predador? A vida de jovem pesquisador é dura mas pelo menos se utiliza de metáforas legais.

Em todo desenho de laboratório existe uma bancadinha cheia de tubos de ensaios. Afinal, quem nunca imaginou um cientista jogando líquidos de um lado para o outro?

Só que os cientistas de bancada modernos já não usam tubos de ensaio tão frequentemente quanto antes. O motivo? As reações que fazemos estão ficando cada vez menores. Por exemplo, em um laboratório de Biologia Molecular, é comum fazer reações químicas de 10 ul, ou 10 microlitros. Apenas um décimo de 1 ml! Para isso, usamos quantidades de reagentes de até 0.2 ul! Muito menor do que uma gota de água! Como fazemos isso? Resposta em um próximo post ;)

O problema é que reações nesta escala não forram nem o fundilho de um tubo de ensaio. Nós fazemos as reações em tubos de eppendorfs, uma espécie de tubo de ensaio 2.0. O tubo de eppendorf mais comum é o de 1.5 ml (4 cm de altura), no entanto existem tubos de até 200 ul (2 cm). A vantagem destes tubos é que eles se afunilam no final, servindo para colocar quantidades mínimas de líquidos. Além disso eles possuem tampinhas anexadas, facilitando o armazenamento destes tubinhos. Por fim, os eppendorfs são feitos de plásticos que aguentam muitos solventes orgânicos e as pressões a que são submetidos em centrífugas (o que é isso? em outro post…).

Contém 1g.

O engraçado (ou trágico) é que estas qualidades todas não escaparam outro tipo de mercado: o do tráfico de drogas. Por ser tão fácil armazenar pequenos volumes em eppendorfs, traficantes começaram a vender eppendorfs com cocaína dentro. No ano passado, um técnico de laboratório foi preso por vender mais de 200 mil tubos de eppendorfs para traficantes! Nas ruas, os tubos de eppendorf ganharam o apropriado nome de foguetinhos.

Outro uso inapropriado dos eppendorfs é colocar água até a metade, um pedacinho de gelo seco, tampá-lo e jogá-lo na pia… o gelo seco vira rapidamente gás carbônico e a tampa do tubinho segura a pressão até uma explosão ensurdecedora surpreender a todos no laboratório! Mas isso é coisa de especialistas, portanto não tentem fazer isto em casa, hein?

Não aparecem as postagens do dia 7 e do dia 8 de abril na página principal do blog… por quê será?

UPDATE: com este post, elas voltaram!

Olhe bem para esta mariposa, o que te chama mais atenção? Provavelmente seus olhos foram imediatamente atraídos para os dois círculos enormes nas asas da mariposa.

Sempre expliquei, e me explicaram, que os círculos serviam para imitar os olhos de grandes pássaros e, com isso, espantar predadores. Pois então: um estudo recente põe esta explicação em xeque.

Os pesquisadores criaram asas de mariposas artificais e prenderam uma larva no centro. As asas possuíam padrões diversos: desde dos círculos imitando olhos até quadrados e listras. Colocando-se as mariposas artificiais nas florestas inglesas, os pesquisadores mediram a freqüência na qual as falsas-mariposas foram comidas. A conclusão foi impressionante: as mariposas com círculos foram atacadas em igual frequência que as mariposas com círculos!

Eles concluíram que o que determinava se as mariposas eram atacadas ou não era o quão conspícuas as mariposas eram, ou seja, quanto mais fáceis elas eram de se encontrar, menos elas eram atacadas! A explicação dos pesquisadores, é que os predadores evitam presas muito visíveis pois elas tendem a ser venenosas. Os círculos, pelo menos nas asas das mariposas, portanto, não têm nada a ver com a sua semelhança com olhos.

Mudem os livros didáticos! E o caso da borboleta Atília tb… (Tim, 2008).

Fonte: Professor Rô Hirata e Behavioural Ecology.

Uma hidra de três cabeças feita de madeira na frente do espelho do banheiro de acsa. Não é um dinossauro nem é um jardim mas são alternativas aceitáveis. A hidra é um brinquedo de madeira muitíssimo bem feito comprado em Praga. Além de dinossauros, tenho muitos dragões e seres mitológicosa similares. Na minha imaginação, dá no mesmo. O espelho foi recentemente comprado em Embú das Artes - SP e agora enfeita o nosso banheiro.

Pergunta simples mas de uma elegância incrível: será que uma borboleta ou uma mariposa, após todas as transformações que ela passa durante a sua metamorfose, se lembra de sua vida como larva? Afinal, as borboletas criam asas, olhos, pernas e órgãos completamente novos e muito pouco da lagarta resta no novo corpo.

Um estudo que saiu no mês passado descreve um experimento que sugere que algumas lembranças são mantidas após a metamorfose.

Os pesquisadores submeteram lagartas a choques elétricos enquanto liberavam um odor específico. Após este tratamento, eles observaram que as lagartas passavam a evitar este odor ou seja, criaram uma aversão a este odor baseado em experiências desagradáveis.

O mais interessante é que esta aversão se manteve após a metamorfose destas lagartas! Enquanto mariposas que não foram expostas ao odor ao tomar choque simplesmente ignoravam a presença do odor, as que eram aversas ao odor como lagartas também o evitavam quando mariposas.

Esta pesquisa é importante porque mostra que borboletas e mariposas podem se lembrar coisas aprendidas como lagartas. Antes acreditava-se que elas começavam uma vida totalmente nova ao sair da pupa.

Fontes: PLoS One e Science Daily

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