Parafraseando Einstein:

“Mystery is more important than knowledge.”

J.J. Abrams

J.J. Abrams, criador da série Lost, disse esta frase em uma palestra que deu para o TED onde falou sobre a “Caixa de Mistérios”. A palestra é curta e vale a pena. Me fez refletir sobre como mistérios fazem parte da nossa vida. Como fazem parte do que nos faz acordar todos os dias.

Será que meu time vai ser campeão? Será que eu vou ter um aumento? Será que ele gosta de mim? Vou conseguir? Vai acontecer? Todos mistérios que resolvemos aos poucos, e cada um revelando outro.

Como cientista faço do mistério meu ofício. Vivo de criar e resolver mistérios. E me espanta que ainda me paguem para isso.

Fonte: Por um punhado de Pixels, TED

O grupo Apicomplexa é um dos mais bizarros que eu conheço. Os membros deste grupo são todos protozoários parasitas de células animais. O nome do grupo é dado por uma estrutura, o complexo apical, que é usada na invasão de células. Dois gêneros famosos deste grupo são os Plasmodium, responsáveis pela malária, e o Toxoplasma, que causa toxoplasmose.

O mais bizarro destes parasitas é a presença de um plastídeo - eu sei, isto é organela de planta. Este plastídeo contém todos os genes que um cloroplasto possui, menos os associados à clorofila. Acredita-se que o plastídeo foi adquirido por endosimbiose secundária (talvez terciária!) onde uma alga vermelha foi englobada e seu cloroplasto, mantido. Não se sabe a função exata do apicoplasto, nome dado ao plastídeo, talvez ele seja essencial para a síntese de alguns aminoácidos. Sabe-se apenas que ele é vital para a sobrevivência destes protozoários e alguns herbicidas que têm cloroplastos como alvos podem ser usados como drogas terapêuticas contra os parasitas.

Mas a coisa ainda é mais bizarra. Um estudo que saiu na Nature desta semana sugere que um herbicida que bloqueia a síntese de ácido abscíssico pode ser usado contra Toxoplasma! Ácido absíssico é um hormônio essencial para a vida das plantas e, aparentemente, para controlar o ciclo reprodutivo de Toxoplasma! Isso sugere mais semelhanças destes parasitas às plantas. Só que estas semelhanças, aparentemente, não têm origem na história evolutiva dos dois grupos mas sim em genes adquiridos posteriormente no evento da segunda endossimbiose.

Nota do autor: é possível que o ácido abscíssico seja um sinalizador mais universal do que se pensa. Esponjas e seres humanos possuem vias que respondem a esta molécula. Só ainda não está claro se esta resposta é específica, como no caso do Toxoplasma.

Fontes: Nature, Science Daily

Um dos assuntos mais presentes nas reportagens deste verão são as caravelas, que teimam em queimar os banhistas no litoral brasileiro. Eu diria que nunca um cnidário teve tanta exposição na mídia brasileira (até entrevistaram o Tim!). O problema é que muitas informações são passadas erradas ou incompletas. Vou tentar falar um pouco sobre esse bicho que anda boiando pelas praias paulistas (e nordestinas, pelo jeito).

Para começar as caravelas (Physalia physalis), as que estão queimando banhistas, não são águas-vivas mas fazem parte do mesmo grupo, os cnidários. Na verdade, as caravelas são uma colônia de cnidários e não um organismo só. As caravelas têm uma parte flutuante, tentáculos venenosos, locais especializados na digestão das presas e na reprodução (feitos de diversos indivíduos, creio eu).

Como as caravelas só se movimentam arrastadas pelos ventos e correntes marítimas, fica meio difícil dizer que os banhistas foram atacados pelas ditas cujas. Mais fácil é dizer que eles ficaram no meio do caminho… O que queima são os tentáculos venenosos, que servem para pegar peixes e outros animais marinhos que toquem as caravelas (imagino que elas tenham algum tipo de iscas para atrair suas presas).

Os tentáculos venenosos são cheios de células chamadas cnidócitos. Dentro dos cnidócitos existe uma estrutura chamada cnidocisto ou nematocisto. Esta estrutura possui um arpão envolto por toxinas. Quando os cnidócitos são estimulados, os nematocistos liberam o arpão que perfura a vítima e permite a entrada do veneno. A ativação do arpão é um dos processos biológicos mais rápidos documentados, chegando a aceler 40.000 g em poucos milisegundos.

Um maneira de se ativar os cnidócitos é mecanicamente, por isso deve-se ter cuidado na hora de tocar em uma caravela, seja para retirá-la da praia, seja para retiré-la de você. Os cnidócitos também são sensíveis à variações osmóticas, por isso a recomendação de não molhar as partes afetadas com água doce, uma vez que ela irá acionar quaisquer cnidócitos que estiverem na sua pele mas que não foram ativados. Um comentário interessante no Wikipedia é a utilização de água quente (45oC) a fim de neutralizar as toxinas, água do mar gelada também ajuda a aliviar a dor. Outra recomendação é o uso de vinagre.

Fontes: Projeto Physalia, Wikipedia

Esta notícia já saiu faz um tempo mas é muito legal para não comentar.

Esquilos do Novo México (pelo menos duas espécies) usam o cheiro de cascaveis como proteção contra predadores. Os esquilos foram flagrados pegando pedaços da pele deixada para trás por cascavéis, cortando-os em pedaços, mastigando-os e depois lambendo seus pêlos a fim de se cobrirem com o cheio impregnado na pele. De acordo com os pesquisadores, os esquilos devem fazer isso para mascarar o seu próprio cheiro e despistar predadores.

O mais impressionante é que os esquilos não só usam os restos de pele de cascavéis mas também superfícies e solos impregnados pelo cheiro das cobras. Além disso, os esquilos jovens costumam se comportar desta maneira mais frrequentemente do que os esquilos adultos. Coincidentemente, ou não, os jovens são sensíveis ao venenos das cobras enquanto os adultos são resistentes.

Além deste comportamento interessantíssimo, outras estartégias utilizadas pelos esquilos contra as cascavéis são o aquecimento da sua cauda para mandar falsos alarmes de calor para as cobras, o reconhecimento de tipos de cobras mais perigosas pelo barulho de seus chocalhos e comportamentos especializados para se evitar mordidas em caso de enfrentamento.

Fontes: Pondering Pikaia, National Geographic e Science Daily.

… e quase todas as provas de corrida a longa distância?

A resposta mais frequentemente ouvida e a mais simplória é a de que quenianos possuem um biotipo mais favorável para se tornarem corredores de alta performance a longas distâncias. É só ver os corpos esguios dos ganhadores da São Silvestre, tradicional corrida de São Paulo que ocorre no último dia do ano, para comprovar isso, certo?

Sim, mas não. Os ganhadores da São Silvestre podem até ter um corpo biomecanicamnete mais favorável às corridas de longa distância quiçá podem ser fisiologicamente mais adaptados para correr no calor úmido que fez no último dia 31. Porém o que explica o sucesso de uma nação inteira nesta categoria do atletismo não é a genética que determina tais corpos mas sim fatores ambientais, mais especificamente, culturais.

Algumas estatísticas tiradas do blog do Malcolm Gladwell sugerem que há cerca de um milhão (!!!) de jovens entre 10 e 17 anos que correm de 16 a 19 quilômetros por dia (!!!). Em média um queniano de 18 anos já correu de 24 a 29 mil quilômetros a mais que um estadosunidense médio. O resultado é que existem cerca de 100 atletas que já bateram a casa das 2 h 11 min na maratona contra cerca de cinco nos Estados Unidos.

Basicamente se corre no Quênia porque é uma maneira de se fugir da pobreza, assim como o futebol no Brasil. Isto resulta em uma quantidade enorme de jovens com talento apra correr sendo selecionados por técnicos que podem exigir o máximo de seus atletas. Um atleta se machucou? Chame o próximo. O resultado é a dominância deste país nas corridas de longa distância, assim como a nossa dominância no futebol. Ou iremos argumentar que o brasileiro é geneticamente predisposto a jogar bola?

Fonte: gladwell.com

PS: para os que vão continuar batendo na tecla das causas genéticas para o sucesso em corridas a longa distância as seguintes perguntas: por quê os países vizinhos do Quênia não são tão bem sucedidos? Por quê a outra potência das corridas de grande distância, a Etiópia, possui corredores com um biotipo tão distinto?

Página 2 de 2«12